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terça-feira, 30 de maio de 2023

Perguntas das académicas - 2

 

(Booking.com, página consultada em 20-05-2023)

A lembrar tristemente tempos antigos em que não eram crianças que não eram admitidas, mas, sim, negros, judeus e cães...

A provar a existência atual de um claro preconceito contra as crianças. O que virá a seguir? Que "Não são permitidos deficientes físicos"? Ou "velhos"? Ou...?

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Continuamos com as perguntas dos académicos: Como conversar com alguém que manifesta pouca vontade de viver?

Tal como em todos os casos que envolvam relações pessoais, uma sugestão é seguir os quatro pilares:

  1. Afeto Incondicional; 
  2. Escuta Ativa; 
  3. Limites (estes devem existir, mas apenas quando temos de avisar que não vamos esconder, se houver, a intenção de se autodestruir).
  4. Valorização.

De preferência, confronto nunca, nem qualquer outra técnica de psicologia reversa; esta é uma estratégia confusa, manipuladora, desonesta, e raramente funciona

O que se deve fazer é…

Começarmos por perguntar o que se passa com a pessoa, o que lhe está a acontecer, mostrando o nosso interesse genuíno, e assegurando-lhe que estamos com ela e que não a abandonaremos.

Ao fazer perguntas à pessoa sobre este tema, não estamos a encorajá-la a considerar o suicídio. Pelo contrário, estamos a proporcionar-lhe um escape para desabafar em vez de agir.

Dêmos-lhe espaço para falar sem nenhum receio de que a vamos julgar e criticar. 

Ouçamos com empatia, sem interromper nem dar conselhos.

Agradeçamos-lhe a sua confiança em nós e a sua coragem por falar de algo que é tão difícil.

Discretamente, procuremos reforçar a autoestima e o amor próprio da pessoa, elogiando atos e características específicas dela (mas nada de generalidades, nem de exageros que a possam levar a duvidar de que estamos a ser sinceros).

Perguntemos-lhe o que se pode fazer, neste preciso momento. Por exemplo, podemos oferecer-nos para fazer algo em conjunto com ela, a fim de abrir uma pausa que alivie o peso que a pessoa está a sentir (por exemplo, darem um passeio juntos ou outra coisa qualquer que seja do seu agrado).

No fim, podemos perguntar-lhe qual a ajuda que podemos dar e de que ela acha que precisa. 

Entretanto, podemos sugerir que façamos juntos algumas respirações profundas pelo nariz. Investigações recentes mostram que este simples ato de respirar profundamente melhora a memória e o processamento das emoções.

Encorajemos a pessoa a recorrer a ajuda profissional, porque a pessoa pode precisar de mais ajuda do que aquela que nós podemos dar. Nomeadamente, indiquemos-lhe a quem ela pode recorrer. Nós próprios também podemos pedir ajuda profissional.

Ministério da Saúde - SNS - Contactos e Serviços Disponíveis

https://saudemental.min-saude.pt/estou-com-pensamentos-de-suicidio-o-que-devo-fazer/

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Uma última pergunta foi feita no sentido de saber qual a validade da seguinte afirmação:

“As crianças devem ter parceiros sexuais”, dizem a ONU e a OMS


Vamos verificar, seguindo uma sucessão de critérios, desde o mais simples até ao mais moroso e complexo.

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1º Critério: Usar de bom senso

É razoável que a ONU e a OMS estejam a defender isto publicamente para todo o mundo, e nenhum país nem nenhuma das grandes religiões se insurja? Quando se está a combater os casamentos precoces de crianças em todo o mundo?

Não, não é.

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2º critério: consultar uma organização em quem se confie

No site Vatican News em português, fiz uma pesquisa com os termos “Educação sexual de crianças” e
“Parceiros sexuais de crianças”.

Não apareceu nada do que é referido na alegação acima.

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3º Critério: Vamos verificar as fontes

Primeiro, dois sites que desmentem com factos aquela alegação:

É falso que a ONU recomende que crianças tenham parceiros sexuais

Finalmente, vamos ao relatório em questão:

Orientações técnicas internacionais de educação em sexualidade: uma abordagem baseada em evidências

Primeiro que tudo, pelo título vemos que são "Orientações", não são "Diretivas":

(Entre parêntesis indicam-se as páginas deste relatório)

(12) As Orientações foram desenvolvidas para auxiliar autoridades de educação, saúde e outras áreas relevantes no desenvolvimento e na implementação de programas e materiais para a educação abrangente em sexualidade realizada dentro e fora da escola.

Portanto, estas Orientações são também úteis para as famílias saberem o que deve ser ensinado ou não, e como.

(13) as Orientações são de caráter voluntário, visto que reconhecem a diversidade dos diversos contextos nacionais, bem como a autoridade dos governos em determinar o conteúdo dos currículos educacionais em seus países.

(16) A Educação Integral em Sexualidade (EIS) deve ser realizada em ambientes formais e não formais e possui as seguintes características:

(17) Capaz de desenvolver as habilidades para a vida necessárias para apoiar escolhas saudáveis – isto inclui a capacidade de refletir e de tomar decisões informadas, comunicar e negociar com eficácia e demonstrar assertividade. Tais habilidades podem ajudar crianças e jovens a formarem relacionamentos respeitosos e saudáveis com familiares, colegas, amigos e parceiros amorosos ou sexuais.

A frase "As crianças devem ter parceiros sexuais" acima nunca aparece no relatório. Aliás, o relatório defende exatamente o oposto, mas
 

Como disse, o relatório visa exatamente o oposto, como se pode ver:

(30) A revisão [feita em 2016] reafirma que programas de educação em sexualidade com base em currículos contribui para:

  • adiamento do início das relações sexuais
  • frequência menor das relações sexuais
  • quantidade menor de parceiros sexuais
  • redução das práticas de risco
  • aumento do uso de preservativos
  • aumento do uso de anticoncepcionais

A revisão das evidências realizadas em 2016 conclui que a educação em sexualidade tem efeitos positivos

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Em conclusão, aquela alegação de que "As crianças devem ter parceiros sexuais" não é verdadeira.

Infelizmente, quando as pessoas combatem ideias com recurso a mentiras, 

  • estão a mostrar ser imorais;
  • estão a dar a ideia de que sabem que não têm razão;
  • os seus pontos de vista não são levados a sério (a não ser por fanáticos);
  • e acabam a oferecer a vitória ao adversário.

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Na verdade, segundo um estudo de 2019 sobre moral, as pessoas que exageram a sua própria moralidade e que enfatizam a imoralidade dos outros, não têm comportamentos (principalmente, privados) a condizer – ou seja, sofrem de Hipocrisia Moral.

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Entretanto, o discurso passou a ser ligeiramente mais moderado porque já não inclui aquelas mentiras declaradas, embora ainda diga outras.

A mesma pessoa agora diz:

Acabaram com a família, acabaram com o casamento, acabaram com os valores cristãos, e agora querem acabar com a inocência das CRIANÇAS 👇 Vamos permitir?

Ninguém acabou nem com a família, nem com o casamento (aliás, agora há até mais possibilidades de casamento), nem com os valores cristãos (embora é verdade que estes não são mencionados nem na Constituição Portuguesa nem na Europeia).

Mais uma vez, não podemos deixar de refletir que, quando começam com mentiras, descredibilizam o resto. O que é uma pena pois a questão final da inocência das crianças parece-me diferente. Esta, sim, seria importante, aqui, discuti-la seriamente.

Ora, poderíamos tê-lo feito, se não tivéssemos que lidar com as mentiras que foram ditas anteriormente. Mas, entretanto, a aula chegou ao fim.

A tod@s muito obrigado pela participação preciosa e votos de boas férias!


terça-feira, 23 de maio de 2023

Perguntas das académicas

 


1ª pergunta: O que fazer quando há mudanças de comportamento para pior em crianças anteriormente bem comportadas?

O programa de 4 passos é transversal a todas as idades e a todas as situações (com adaptações): 

  1. manifestar afeto incondicional e empatia 
  2. escutar ativamente (inclui perguntar com cuidado, não interromper, não criticar, nem dar conselhos a menos que sejam pedidos) para descobrir o que se passa (com a criança e com as circunstâncias que levaram ao problema).
  3. combinar os limites que minimizem frustrar as necessidades de todos.
  4. e, depois, usar de positividade, para resolver o problema, valorizando a criança, não a vendo como má e focando-se nas soluções.

É preciso estar num estado de espírito recetivo para se poder comunicar com proveito. Se, no momento, ficarmos zangados, é útil esperarmos até as emoções acalmarem, ao mesmo tempo que procuramos pôr-nos no lugar da criança e verbalizar o que sentimos. Em seguida, esperamos com paciência pelas reações da criança.

Indicam-se a seguir algumas sugestões complementares às orientações anteriores:

Quando o afeto e a disponibilidade para a escuta são difíceis, lembrar que, se há mau comportamento, há sofrimento.

Se há sofrimento, há necessidades importantes que não estão a ser satisfeitas. 

Descobrir quais são essas necessidades (não são os “apetites”, mas as referidas na pirâmide de Maslow), procurando entender completamente o que a criança nos quer dizer (pelas palavras que diz, pela forma como fala, pelos gestos que faz e pelos atos que realiza). 

A mãe de todas as necessidades de qualquer criança é ser amada.

Outras necessidades fundamentais da criança são ser ouvida, aceite e compreendida.

Muitas vezes, não precisamos de dizer nada para mostrar afeto, um abraço pode dizer tudo.

Por vezes, com crianças pequenas, as nossas perguntas não suscitam nenhuns pensamentos significativos que consigam partilhar, apesar de elas saberem o que as incomoda e o que as faz sofrer. Nestas ocasiões, convém usar métodos mais indiretos de inquirição.

Uma forma de conseguirmos que a criança mais pequena se abra connosco é contar uma história e/ou pedir para ela fazer um desenho à vontade. Depois, conversamos, perguntando a sua interpretação, dizendo o que vemos e pedindo para ela nos explicar.

Outra forma é perguntar-lhe o que ela desejaria que fosse diferente na sua vida: assim ela sente-se ouvida, validada e compreendida; ficamos a saber melhor o que se passa; ajuda a obter a cooperação da criança (explicando que esta é importante para satisfazer a necessidade que ela relatou).

Pode-se conversar primeiro com a criança em particular. Depois, às vezes, pode ser útil conversar com a família em geral para a criança saber que estão todos interessados em ajudá-la.

Em qualquer altura, em que sentimos não estar a conseguir ajudá-la, podemos sempre levá-la a um psicólogo infantil.

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2ª pergunta: Como ajudar uma adolescente a lidar com a perda da sua amiga?

O programa de 4 passos é transversal a todas as idades e a todas as situações (com adaptações): 

  1. manifestarmos afeto incondicional e empatia pela adolescente
  2. escutá-la ativamente (inclui perguntar com cuidado, não interromper, não criticar, nem dar conselhos a menos que sejam pedidos) para descobrir o que se passa (com a adolescente e com as circunstâncias que levaram ao problema).
  3. investigarmos os limites que permitem que as suas necessidades não sejam frustradas,
  4. e, depois, ajudarmos a adolescente a encontrar soluções, valorizando-a e acreditando na sua capacidade para o fazer.

Sermos afetuosos com ela e mostrarmos que estamos SEMPRE do lado dela (em particular, nunca perguntar “Mas o que é que tu fizeste para que ela se zangasse contigo?”, porque estamos a sugerir que ela foi culpada).

Escutá-la com simpatia e compreensão, encorajando-a a expressar os seus sentimentos e pensamentos sobre a situação.

Não reagirmos em excesso ao ponto de ela se arrepender de ter falado connosco.

Mostrarmos disponibilidade para responder a perguntas que ela queira fazer. Mas evitarmos a tentação de dar conselhos que ela não esteja a pedir.

Ajudá-la a pensar se era uma amizade boa ou se era tóxica. A resposta a esta pergunta irá determinar de certa forma o que fazer a seguir. Se a amizade era boa, há que pensar no que ela pode fazer para a recuperar. É o que vamos ver a seguir.

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Como tornar possível recuperar uma amizade?

Ir falar com a amiga, tendo em mente os 4 passos e perguntar-lhe o que se passa/passou (ao mesmo tempo, pode dizer-lhe o que está a sentir, se não for agressivo, devendo incluir aqui o afeto que sente por ela). Com genuínas afeição e empatia, ou seja, vontade de a compreender (nunca para a julgar nem para a criticar), e de saber quais as suas necessidades (que foram frustradas).

Depois de ouvir a amiga, pedir-lhe desculpa por a ter feito sentir-se mal (mesmo que ache que a amiga não tem razão).

Dizer-lhe quais as suas necessidades também (incluir aqui, se necessário, os limites que gostaria de ver respeitados).

Comunicar-lhe (pela positiva) o que gostaria que acontecesse.

Perguntar-lhe o que pode fazer para pôr as coisas entre elas bem outra vez.

O processo pode ser bloqueado pela amiga em qualquer destes passos, sem culpa nenhuma de ambas as partes. Há apenas uma divergência de objetivos de vida e de caminhos para lá chegar.

Neste caso, separar-se sem fechar portas, com o 4º passo (elogio e valorização): por exemplo, referir à ex-amiga como essa amizade foi importante e que não será esquecida.

Em seguida, seguir os passos a tomar quando ela conclui lá atrás que a amizade é tóxica e quer avançar sem ela.

Mais uma vez, o que nós, adultos, podemos fazer? Não darmos conselhos. Não fazermos julgamentos, nem em relação a ela, nem às suas ideias, nem às suas amizades. Oferecermos o nosso apoio e a nossa ajuda no que ela precisar e pedir.

Eventualmente, podemos sugerir que procure apoio nas amizades atuais, que  recupere amizades antigas que estavam um pouco abandonadas, que se abra para fazer novas amizades (voluntariado, clubes, etc.) e que se proteja e se afaste de contactos tóxicos nas redes sociais.

Finalmente, se o sofrimento continuar e não conseguir superá-lo, podemos sugerir o recurso a um psicólogo que a possa ajudar melhor.

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Uma ótima semana para tod@s!


terça-feira, 9 de maio de 2023

Castigos corporais (conclusão). Valorizar e estimular progressos na criança.

 


Vamos continuar com o que, sobre o castigo corporal, muita gente acredita:

8. Sem o uso do castigo corporal para disciplinar as crianças, elas tornam-se mimadas e ficam sem regras.

9. O castigo corporal ensina uma criança a respeitar os outros. (ensina a ter medo, sim; a ter respeito, não)

10. O castigo corporal deve ser usado para disciplinar uma criança de cada vez que ela se comporta mal.

Todas estas crenças são falsas, como foi demonstrado até à exaustão pela investigação científica. Em particular, a antepenúltima (8) é tragicamente falsa!

Efetivamente, esta crença nasce de uma ligação de causa e consequência que, pura e simplesmente não existe. Dar mimo, isto é, amor em abundância, não tem nada a ver com a criança ficar sem limites e sem regras. Aliás, um amor verdadeiro, que não seja apenas uma manifestação de um sentimentalismo barato, implica que se estabeleçam limites e regras ao que a criança pode fazer, a fim de garantir a sua segurança e o seu bem-estar, bem como os de todos os outros que convivam com ela.

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Há mais algumas crenças que não foram seleccionadas por este estudo e que acrescentarei às anteriores:

11. Os pais têm o dever de correção e, se for preciso bater, bate-se. (os pais têm o dever de correção, mas não têm o direito de cometer o crime de bater)

12. Os castigos corporais são sempre dados por amor e para segurança da criança. (não é verdade: o que a investigação demonstra é que os castigos corporais são aplicados porque os pais perderam a paciência)

13. As crianças esquecem com facilidade e recuperam bem de tudo o que de mal lhes façamos. (não é verdade: nem esquecem com facilidade, nem recuperam bem do mal que lhes fazem - aliás, se isto fosse verdadeiro, então bater para quê, se elas esquecem com facilidade?)

14. Uma última crença consiste em as pessoas que batem acreditarem que, tendo-se tornado boas pessoas, isso aconteceu por causa dos castigos corporais que receberam na sua vida. Não é verdade. Elas tornaram-se boas pessoas apesar dos castigos corporais. Na verdade, elas conseguiram superar muito do mal que os castigos corporais lhes trouxeram. Ou seja, o mérito de se terem tornado boas pessoas é muito mais delas do que dos seus violentos educadores.

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Existem vários fatores que concorrem para haver pessoas que continuam a agredir com violência os seus filhos:

  • Maus tratos sofridos na infância
  • Falta de informação e de conhecimento
  • Cultura da época
  • Religiões que parecem favorecer os castigos corporais a todas as pessoas
  • Regiões com hábitos diferentes, em que algumas defendem mais os castigos corporais
  • Cansaço e outras pressões com origem no contexto onde as pessoas vivem o seu dia-a-dia (nomeadamente nos seus empregos)
  • O clima político e socioeconómico do país – onde há mais solidariedade social e menos violência do Estado, há menos agressões entre as pessoas em geral.

Note-se ainda que o ser humano é muito complexo e não encaixa em nenhuma teoria, pelo que aqui não se fala de causas, mas apenas de condições que facilitam o eclodir da violência. E que continuam a alimentar aquelas crenças.

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A encerrar este tema dos castigos corporais, aqui ficam alguns alertas do Instituto de Apoio à Criança:




📞 LINHA SOS CRIANÇA - 116 111

Uma equipa técnica especializada nos problemas que afetam as crianças e os jovens está deste lado para ouvir, acompanhar, ajudar, proteger e informar! 💙

Outros contactos disponíveis:

WhatsApp – 966 065 750 / 966 065 767 / 913 069 404

Chat online - www.iacrianca.pt

Email – soscrianca@iacrianca.pt


Linha SOS Criança Desaparecida - 116 000.

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Para terminar este capítulo sobre o Estabelecimento de Limites e de como o fazer, lembro que só nos detivemos nos castigos corporais. Infelizmente, na nossa sociedade, as crianças são sujeitas ainda a muitos outros tipos de violência. Como, por exemplo, abuso sexual, abuso laboral, negligência e violência psicológica (da qual a violência verbal é apenas uma das suas várias componentes).

A luta para que as crianças sejam tratadas e educadas com a mesma justiça e com a mesma humanidade que os adultos exigem para si mesmos ainda vai muito no princípio.

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4. Valorizar e estimular progressos na criança

(Foto tirada de Guiainfantil.com)


Vamos agora para o quarto pilar de uma educação para a paz. Vamos falar de valorizar e estimular progressos nas atitudes e no comportamento verbal e não verbal da criança.

Falo de "progressos" e não de resultados porque estes nem sempre são os que esperaríamos, nem muitas vezes são imediatos. Os progressos, sim, esses vão-se desenvolvendo ao longo do tempo e, portanto, dão muito mais oportunidades de elogiar a criança e de a encorajar no caminho certo.

Como podemos fazer isto?

  • Primeiro, termos em atenção que há muito mais coisas positivas do que negativas para valorizar na criança (aliás, em todos nós). Por isso, não procuremos o pormenor irrelevante para humilhar; procuremos antes o que é verdadeiramente importante para elogiar.
  • Proporcionemos experiências de sucesso de diferentes tipos, com desafios adaptados à idade da criança (veja-se foto acima).
  • Mostremos compreensão e tolerância com as suas falhas (pois todos as temos, não são só as crianças; e também não gostamos que as utilizem para nos humilhar).
  • Celebremos as vitórias da criança com alegria e orgulho. Às vezes podemos até fazê-lo com uma recompensa extra (não tem de ser material, pode ser concedendo um privilégio).
  • Elogiemos principalmente os esforços que desenvolveu, embora também possamos fazê-lo com os resultados que obteve (o problema com estes é que dependem de outras coisas que a criança não controla, enquanto os esforços estão mais sob o seu controlo pessoal). 
  • Reconheçamos e apreciemos todas as melhorias que observarmos na criança.
  • Valorizemos e encorajemos a persistência que ela revela para alcançar os seus objetivos e para ultrapassar as dificuldades que encontra.

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A ausência de elogios tem várias consequências pouco positivas.

  • Receber um elogio da parte daqueles cuja aprovação mais se deseja (é o caso da criança em relação a nós), é o melhor sinal que ela pode receber de que o que fez foi bem sucedido (mesmo que não haja resultados visíveis).
  • Quando não reagimos ao que a criança faz de bem, ela sente que foi mal sucedida ou que não devia ter feito o que fez.
  • Assim, ela não o repete.
  • Se não o repete, não o aprende.
  • Se o insucesso se repete, ela aprende o insucesso (ela aprende o que se repete - seja qual a forma que ele tome, desde a violência até ao azedume e à distração).

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Tenhamos em atenção que um comportamento menos bom ou de resistência relacionado com o desempenho escolar por parte da criança pode sinalizar 

  • problemas relacionais na escola;
  • dificuldades de atenção ou de aprendizagem;
  • ou, às vezes, simplesmente um problema de audição ou de visão, por exemplo. 

É preciso despistar estas possibilidades, antes de pensarmos em criticá-la e condená-la (e muito menos de castigá-la!).

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Antes de terminar o tema de como educar para a paz, gostaria de esclarecer que, evidentemente, a disciplina sem violência poderá ser imperfeita (há poucas coisas perfeitas no nosso mundo) – só que também é verdade que, com violência, é pior.

Com as crianças, hoje em dia,  temos de escolher ou fazer coisas possivelmente ineficazes, ou fazer coisas decididamente criminosas. Bater numa criança é legalmente um crime, mas há outras coisas que, embora não haja lei que as proíba, são também crimes. Devemos evitar fazê-las. Falámos delas ao longo destes meses, mas, genericamente, podemos incluir tudo o que lhe cause um sofrimento físico ou mental que está na nossa mão impedir, sem que daí advenha um prejuízo para ela.

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Mas têm os Educadores e os Cuidadores de ser perfeitos? Não. Nem o devem ser.

Por exemplo, os pais não devem responder sem falhar a todas as necessidades da criança, senão ela também não cresce (não aprende a lidar com dificuldades, a ultrapassá-las, etc.). A única necessidade cuja satisfação não deve ser nunca negada é a do AMOR!

Por isso, uma mãe ou um pai só precisam de ser suficientemente bons. A imperfeição é humana. As crianças preferem-na.

Até porque pais perfeitos constituem uma carga suplementar de culpabilização para os filhos durante toda a sua vida (devido a nunca conseguirem igualar a perfeição dos pais).

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Em resumo, os 4 pilares de uma educação para a paz são:

  1. Manifestar sempre Afeto / Amor pela criança.
  2. Escutar Ativamente a criança.
  3. Ser Firme (não rígido) no Estabelecimento de Limites.
  4. Valorizar e Encorajar a criança, estimulando-a a alcançar a melhor versão de si mesma.

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Gostaria de pedir a tod@s que, para a próxima aula, trouxessem uma pergunta que desejassem ver tratada nas próximas semanas. Que esteja mais ou menos dentro do âmbito da Psicologia, de preferência. Uma pergunta que vos seja realmente importante e premente.

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Obrigado e uma ótima semana para tod@s!


terça-feira, 18 de abril de 2023

Castigos corporais: mitos e crenças

 


Vamos fazer uma reflexão final sobre Castigos Corporais, no sentido de percebermos melhor as pessoas que os defendem e de sermos capazes de as convencer a mudar de opinião.

Sabemos que praticamente todos os adultos concordam publicamente com o respeito pelos Direitos da Criança. 

Mas, na prática, às ocultas de olhares estranhos, muitos adultos contradizem esse respeito com o seu comportamento violento em relação às crianças. Quantos serão?

Nos E.U.A.,

(…), an ongoing national survey from the University of Chicago reveals that support for the statement, “It is sometimes necessary to discipline a child with a good, hard spanking” was 83% in 1986, dropping to 72% in 1996 and 2006 and, most recently, remaining in the majority at 68% in 2016. (David Rettew, Parenting Made Complicated, Oxford University Press 2021, p.167/8)

Note-se que, quando as pessoas respondem a um inquérito, por vergonha, muita gente não diz o que pensa e muito menos o que faz, tal como nas sondagens que dão sempre menos intenções de voto aos políticos mais grosseiros e brutais.

No Brasil,

Dados da Sociedade Internacional de Prevenção ao Abuso e à Negligência na Infância (Sipani) de São Paulo revelam que, em média, 18 mil crianças são vítimas de violência doméstica por dia, no Brasil; e nos últimos meses de pandemia, esses números possivelmente aumentaram, porém não estão sendo contabilizados.

De acordo com o estudo "Será que uma palmada resolve", do Instituto de Apoio à Criança (IAC), realizado com base em inquéritos online a 1.943 pessoas voluntárias, 30% dos pais consideram aceitável usar castigos corporais em crianças, sobretudo quando desobedecem aos pais, são "malcriadas" ou não cumprem com as regras da família.

Ainda em Portugal, 5300 crianças e respetivos pais que participam no projeto Geração XXI - uma das maiores coortes de crianças da Europa - compõem a amostra deste estudo realizado pelo Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto. 75% dos menores com sete anos de idade reportaram ser vítimas de agressão psicológica e de castigo corporal com frequência e 10% revelaram maus-tratos físicos graves e muito graves.

Não há dúvida: em Portugal, os castigos corporais continuam a ser uma realidade! Apesar de serem puníveis por lei. Porém, a lei muitas vezes não é cumprida pelas pessoas, nem aplicada consistentemente pelos tribunais, como já vimos numa aula anterior. E pais, familiares e outros cuidadores continuam a bater.

Porque se continua a consentir o castigo corporal sobre as crianças?

(Note-se: consente-se apenas no seio da família, o que não se percebe – se pensam que bater é assim tão bom, porque não defendem, por exemplo, que os especialistas da educação e da psicologia também devem bater nelas?)

Para responder àquela pergunta, vamos usar o estudo aqui referido.

Primeiro, os investigadores consideram Castigo Corporal como uso da força física com a intenção de causar dor à criança, mas não lesões nem ferimentos, com o objetivo de corrigir ou controlar o comportamento da criança.

Assim, sobre o castigo corporal, muita gente acredita que:

  1. O castigo corporal usado para disciplinar uma criança é inofensivo.
  2. Usar do castigo corporal ocasionalmente para disciplinar uma criança não lhe causa danos.
  3. O uso do castigo corporal ensina responsabilidade à criança e ajuda a desenvolver o seu caráter.
  4. É irreal pensar que os pais nunca devem usar o castigo corporal para disciplinar uma criança (não é, já que nos países onde existe há mais tempo legislação a proibir os castigos corporais são aqueles onde eles ocorrem menos frequentemente).
  5. O castigo corporal funciona melhor do que outros métodos de disciplina.
  6. O castigo corporal deve ser usado para disciplinar tanto meninos como meninas. 
  7. O castigo corporal é a única coisa que as crianças entendem.

Todas estas crenças são falsas, como foi demonstrado até à exaustão pela investigação científica.

Continuaremos na próxima aula. Uma ótima semana para tod@s!


terça-feira, 28 de março de 2023

Castigos corporais: satisfação das necessidades humanas e a ética

 


Nelson Mandela referia a educação. Eu, concordando com ele, acrescentaria o elogio afetuoso e caloroso como arma poderosa para mudar o comportamento dos outros.

Por isso, numa aula anterior, falámos de como elogiar era algo de extremamente vantajoso para adultos e crianças. Por vezes, parece ser difícil encontrar o que elogiar. No entanto, lembremo-nos de que há no mundo muito mais coisas positivas do que negativas – só temos que desenvolver uma atitude descobridora dessas coisas positivas. Em particular, os aspetos e acontecimentos de vida positivos excedem os negativos; tal como acontece com as características e qualidades positivas das pessoas que excedem as negativas.

Tal como fazíamos com um exercício de que falámos no passado para a gratidão, contemos diariamente 3 coisas boas que as crianças fizeram. Depois, agradeçamo-las e celebremo-las:

  • Para ela se sentir recompensada e bem.
  • Para reforçarmos os comportamentos bons (e, assim, encorajarmo-las a repeti-los).
  • E para nós também nos sentirmos bem.

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Voltando à Pirâmide de Maslow:


Reparemos como, tanto para crianças como para adultos, satisfazer estas necessidades contribui para:

  • equilibrar os três sistemas de regulação de emoções;
  • promover a sua realização plena como ser humano feliz e útil para a sociedade.

Para as crianças, em especial, contribui também para ensiná-las como fazê-lo de forma saudável e autónoma, quando crescerem e se tornarem independentes.

Será preciso mais para as crianças? Na verdade, pouco mais, apenas faltaria satisfazer as que se referem a necessidades específicas de desenvolvimento (por exemplo, mover, interagir, educar, brincar, etc.). Porém, se se conseguisse garantir-lhes só isto, já seria muito bom!

Na verdade, podemos usar esta Pirâmide como um instrumento para nos colocarmos duas interrogações:

  1. Estamos a contribuir positivamente para que a criança esteja a ter as suas necessidades satisfeitas? Pelo menos, as quatro primeiras básicas? 
  2. Há alguma destas necessidades que seja adequadamente satisfeita com o uso de castigos corporais?

À primeira pergunta, a resposta dependerá do que cada um de nós estiver a conseguir fazer com as suas crianças.

A segunda pergunta é muito mais fácil de responder: NÂO, nenhuma daquelas necessidades é satisfeita com o recurso a castigos corporais. Logo, a conclusão necessária é que estes são usados para satisfazer as necessidades do adulto e só do adulto.

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Depois de analisada a questão do ponto de vista educacional, vamos agora considerá-la do ponto de vista ético.

Os fins justificam os meios?

O argumento para um "sim" toma a seguinte forma:

Os meios são abomináveis ("bater é mau"), mas como o fim é louvável ("criança fica educada"), esses meios ficam automaticamente justificados ("bater é bom e útil").

Vejamos: Já vimos que a ciência é unânime em considerar que a criança não fica educada com os castigos corporais (se ficar, será apesar deles). Por outro lado, será que, sob o ponto de vista ÉTICO, punir fisicamente uma criança é defensável? Porquê?

Não. 

Primeiro que tudo, porque reprovamos tal medida quando aplicada aos adultos (apesar de eles até serem bem mais capazes de se defenderem do que as crianças), dado ser algo de ofensivo para a sua dignidade como pessoas.

Se isto não for claro, podemos perguntar-nos que razões podem haver para defender a punição física de:

  • um polícia ou um militar sobre um civil?
  • um patrão sobre um empregado?
  • um diretor da cadeia sobre um recluso?
  • um comandante sobre um soldado ou um marinheiro?
  • um marido sobre a sua mulher?
  • um professor sobre um aluno?
Na verdade, não existem razões nenhumas e, por isso, ninguém defende a punição física nestes casos. Então, porquê abrir exceção para a punição física infligida pelos pais sobre os seus filhos?

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A segunda razão porque não é defensável, sob o ponto de vista ético, punir fisicamente uma criança é que são ilimitadas:

  • a dependência de uma criança pequena em relação aos pais, 
  • a sua confiança ingénua neles, 
  • a sua absoluta necessidade vital de amarem e de serem amadas,
  • a sua incapacidade física de se defenderem das agressões.

Assim, puni-la fisicamente não será aproveitar estas características infantis, de uma forma pelo menos um pouco brutal e abusadora? E, no fundo, segundo a ciência, resultando na quase inevitável desgraça presente e futura dessa criança e da sociedade, em geral.

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Em suma, porque batemos numa criança?

Porque o sistema de ameaça fica ativado e produz emoções negativas. O organismo percebe que o outro (criança) é mais fraco e opta pela “luta”. Porque, se percebesse que o outro era mais forte, engolia a zanga e fugia ou paralisava ou submetia-se (por isso, deixamos de bater no rapaz quando ele começa a ficar do nosso tamanho). Não é bonito. Nem ético.

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Mas também porque os castigos corporais desde 2007 que são proibidos pela lei penal portuguesa!

O Código Penal Português [artigos 152º (Violência doméstica) e 152º-A (Maus tratos)] tipifica os maus tratos físicos ou psíquicos, incluindo castigos corporais de crianças pelos educadores, como crimes de violência doméstica e de maus tratos. O agente é punido com pena de prisão de um a cinco anos, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal, podendo ainda o agente ser inibido do exercício do poder paternal.

A jurisprudência considera que a punição física de um filho constitui a prática de um crime de ofensa à integridade física. Mas continua, infelizmente, a discutir os limites entre o poder de correção dos pais e a ofensa à integridade física penalmente punida, e a aceitar que a intenção de educar pode excluir o dolo enquanto intenção de molestar fisicamente.

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Vejamos um exemplo (notícia do Público de 1-2-2023):

Tribunal da Relação absolve pai que esbofeteou o filho: “Foi um castigo leve e proporcional”

Acórdão assinado pelo juiz Carlos Coutinho diz que “punição foi legítima, porque o arguido é o pai do ofendido e agiu com a intenção de o corrigir”

O rapaz de 13 anos combinara apanhar o autocarro no final das aulas. O pai esperou, telefonou – uma, duas, três, quatro, “20 vezes”. Avisou a ex-mulher que ia alertar as autoridades. O rapaz deu sinal de vida. Estava a jogar futebol, num campo adjacente à escola. Tinha o telemóvel em silêncio. O pai precipitou-se para lá e, à frente dos colegas, deu-lhe uma bofetada.

Duas perguntas apenas:

  1. Corrigir o quê? O rapaz apercebeu-se da falha e tinha telefonado ao pai a descansá-lo.
  2. Não haveria outra maneira de levar o rapaz a não repetir esse comportamento? Claro que sim.

Ou seja, do meu ponto de vista, teria de haver uma razão fortíssima (o que parece não se verificar aqui) para o juiz ir contra a lei e absolver o agressor. Assim, o que se pode concluir é que, infelizmente, existe um claro preconceito por parte do juiz contra o rapaz, que afetou gravemente a sua decisão.

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Na próxima semana, iremos continuar a refletir sobre este tema.

Até lá, uma ótima semana para tod@s!


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

A realidade dos maus-tratos a crianças e o que podemos fazer

 

(foto tirada daqui)

Sei que este tema dos maus-tratos físicos a crianças tem sido um assunto pesado. No entanto, repare-se que as soluções e alternativas de que aqui vamos falando são aplicáveis a todos os seres humanos, não só a crianças. Mas, além desta razão, há outras que justificam a necessidade de enfrentar este assunto e que passo a detalhar a seguir.

Primeiro, volto a recordar que estamos a tentar encontrar uma educação que não torne as crianças adultos violentos. 

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Por exemplo, uma educação que evite que isto aconteça - Jornal de Notícias de 14.02.2022:

“Em 2022, a PSP e a GNR receberam um total de 3530 queixas de violência no namoro, o que corresponde a uma média de cerca de dez situações reportadas por dia.”

10 situações por dia num país tão pequeno! Considerem ainda todas as outras em que as vítimas tiveram medo de reportar; ou que acharam que deviam dar mais uma oportunidade ao agressor de se corrigir; ou que menorizaram a importância das agressões; ou que, pelos filhos, optaram pelo silêncio; etc., etc.

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Uma educação que evite também que isto tenha de acontecer:

(dados tirados daqui)

Em cada dia (em 365 dias do ano), 8 crianças são retiradas às respetivas famílias para as proteger de extrema violência! Saliento que estes são os casos de extrema gravidade, dado que a política seguida é de só retirar as crianças à família apenas em último recurso.

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Uma educação que acabe com isto:

(dados tirados daqui)

Para além de que não deveria haver nenhuma criança a ser assassinada, veja-se que também aqui a tendência é terrivelmente crescente.

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Quais as causas destes números sinistros? Múltiplas, mas uma delas é outra violência infinitamente injusta que é exercida sobre as crianças. Apresento mais uns números aterradores, tirados do Jornal de Notícias de 24.01.2023:

«Em Gaia existem 4492 crianças em situação de pobreza extrema, afirmou a ministra do Trabalho e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho (...) sublinhando que a nível nacional o número ascende às "170 mil".» 

Saliento que não é apenas pobreza simples, é «pobreza extrema». E que é o próprio Governo da República Portuguesa (já o 23º depois do 25 de Abril!) a reconhecer esta realidade pavorosa para as crianças!

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Portanto, vejam a necessidade urgente de travar esta tendência!!!

Pergunto: alguém se atreve a responsabilizar ou a culpar as crianças por estas situações?

Se não, então a conclusão rigorosamente necessária é que a culpa é totalmente dos adultos…

Sendo assim, a completa ausência de culpa ou de responsabilidade por parte das crianças não nos cria uma obrigação humana e moral para com elas? Claro que sim.

O que podemos então fazer?

Primeiro que tudo, tenhamos em atenção que muitas vezes, a última esperança de salvação destas crianças está:

  • em vizinhos atentos e solidários;
  • na vigilância e na proteção das escolas; 
  • e nos serviços do Estado (comissões de proteção - CPCJ, polícias e tribunais).

Por isso, no que toca a nós próprios:


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Mas há muito mais que podemos fazer. 

Podemos também sensibilizar familiares, amigos e conhecidos, transmitindo-lhes os conhecimentos baseados na ciência adquiridos nestas aulas. A fim de mudar a situação de ignorância em que só…

Alguns — muito poucos — já introduzem na sua narrativa o evoluir recente da própria representação da infância, da sua vulnerabilidade e dos seus direitos. 

(referindo-se aos bispos diocesanos no ativos e a superiores e superioras gerais de alguns institutos religiosos, em Dar Voz ao Silêncio, item 31. do Relatório Final - Sumário Executivo)

O princípio fundamental a ser interiorizado pela sociedade no seu todo é que as crianças são pessoas acima de tudo. Em absoluto, não são “menores”, são crianças detentoras de dignidade e de direitos, mais ainda do que os adultos, dada a sua fragilidade e dependência específicas à sua pouca idade.

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Mas há mais a fazer.

Não aprovemos, nem aceitemos, nem toleremos situações de violência física e psicológica contra as crianças .

E ainda podemos apoiar por todas as formas que nos forem possíveis as organizações que defendem e tentam proteger as crianças (quanto mais não seja, divulgando o seu trabalho e angariando apoiantes).

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Além disto, o que está ao nosso alcance fazer no nosso dia-a-dia? Algo que é simultaneamente simples, mas que é raro a maior parte de nós fazer:

Elogiar TODOS (CRIANÇAS E ADULTOS) o mais possível e sempre que possível. 

No que se refere às crianças, esta prática serve para as fazer mais felizes e, simultaneamente, estimular nelas os bons comportamentos que desejamos que elas adotem.

Quanto aos adultos, elogiar as crianças ajuda a fazer-lhes ver os muitos lados bons das crianças. Elogiando os próprios adultos, estamos também a alimentar neles um espírito mais benévolo (estamos a alimentar o seu “lobo bom”).

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No entanto, muitas vezes sentimo-nos cansados e não vemos o que elogiar, nem nos apetece fazê-lo. Isto acontece porque elogiar não é uma ação natural para a maior parte de nós. Isto quer dizer que temos de treinar esta arte (pois apesar de ter uma vertente técnica, de uma verdadeira arte se trata).

Como treiná-la? Primeiro que tudo, temos de educar os nossos sentidos e a nossa mente para descobrir belezas no dia-a-dia.

Interroguemo-nos sobre que coisas suscetíveis de elogio encontramos que são belas, ou boas ou interessantes para nós. Investiguemos isto durante esta semana. Na próxima aula, retomaremos este tema.

Até lá, uma ótima semana para tod@s (mais uma vez com um imenso obrigado pela excelente participação)!


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Alternativas aos castigos corporais

 


Voltando um pouco atrás ao que dissemos no final da aula passada, há algo que devemos evitar na medida do possível: a crítica. Porquê?

Porque qualquer tipo de comportamento crítico (por palavras ditas ou escritas, expressões não verbais, ou ações) ativa em todos os seres humanos o sistema de ameaça, com todas as consequências desagradáveis (e inúteis) que isso traz.

Por outro lado, o que nos custa elogiar?

E quando temos de fazer uma chamada de atenção à criança? Aí, é muito importante o modo como ela é transmitida à criança…

“Digo sempre às pessoas que desde o momento em que uma criança se levanta de manhã até ir dormir à noite, a missão central do dia é evitar a todo custo a humilhação.” (Dr. Mel Levine) 

Não será esta também uma regra a seguir com os adultos?

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Então, que ações nossas podem ajudar a criança a estimular os outros dois sistemas?

Como vimos resumidamente na aula passada, 
  • mostrar compreensão (em relação a ações passadas menos bem conseguidas por parte da criança), 
  • apoiar (agora e aqui, no presente), 
  • e encorajar (para o futuro) atitudes e comportamentos, positivos e construtivos (mas que estejam ao alcance da criança, a fim de não a frustrar).
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Concretamente, que alternativas a ciência propõe? Eis algumas:
  • Valorizar, elogiar e encorajar os comportamentos positivos.
  • Conversar com a criança para saber o que a está verdadeiramente a incomodar; depois, ajudá-la a resolver o problema e a ultrapassá-lo.
  • Ignorar comportamentos negativos insignificantes.
  • Quando se trate de comportamentos mais graves, usar time-outs (explicando bem à criança qual a sua finalidade, que não pode não ser a de castigo).
  • Também nos casos graves, combinar consequências, que incluam sempre que possível a reparação do mal feito.
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Façamos um pequeno exercício de empatia: vamo-nos pôr no lugar da criança, face aos castigos corporais – o que pensa ela e o que sente ela, quando os recebe? O que quer que seja, terá a ver com os seguintes três grupos:

  • A absoluta incapacidade de se defender fisicamente.
  • A impossibilidade de fugir.
  • O estado de absoluta vulnerabilidade psicológica, face às suas necessidades de crescimento e de desenvolvimento.

Quais serão estas necessidades, em concreto? É o tema da nossa próxima aula que, por impossibilidade minha na próxima semana, terá lugar só no dia 14. Até lá, tudo de bom para tod@s!

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Ainda o que a ciência nos diz sobre os castigos corporais

 


Vamos acabar de analisar o que a ciência concluiu sobre os castigos corporais.

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Os castigos corporais levam a que a criança assim castigada adquira um sentido moral distorcido e antissocial. Pelo que trazem à criança dificuldades acrescidas de adaptação social na escola, no clube, no grupo de amigos, etc.

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Promovem nela uma maior propensão para acidentes, bem como para a adoção de hábitos prejudiciais, como fumar ou beber.

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Tudo o que aqui se registou de mau sobre os castigos corporais ainda se torna pior em crianças que, temperamentalmente, são mais ansiosas ou zangadiças, ou ambas.

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Mas a ciência há de ter descoberto alguns benefícios de se usarem os castigos corporais, ou não?

Não.

Apenas um único estudo de 1981 com 24 crianças mostrou melhoria estatisticamente significativa, a curto prazo, na obediência, em comparação com estratégias alternativas - time-out e um grupo de controle” (isto é, não fazer nada). 

No entanto, este estudo, por melhor que tivesse sido realizado, apresenta muitas limitações.

Primeiro, porque analisa apenas 24 crianças. É pouco, muito pouco para se poderem fazer generalizações minimamente interessantes.

Segundo, só mostrou melhorias a curto prazo, o que vem confirmar estudos posteriores que referem a pouca eficácia dos castigos corporais a longo prazo.

Terceiro, só se debruçou sobre a obediência, o que me parece pobre como objetivo de uma educação de crianças. 

Quarto, só comparou com a técnica do time-out e com não fazer nada. Não se comparou, por exemplo,  com ouvir e conversar com a criança, algo que seria muito mais interessante de saber qual a diferença entre os dois métodos. 

Portanto, apesar de ser o único estudo em décadas que mostra alguma vantagem nos castigos corporais, acaba por confirmar a pobreza de resultados deste tipo de educação. 

Em suma, até ao momento, não existe nenhuma outra investigação que tenha descoberto que os castigos corporais trazem o que quer que seja de positivo.

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Qual a razão profunda para os castigos corporais terem tão maus efeitos na criança?

Sobreativam o Sistema Focado na Ameaça, no Perigo e na Autoproteção, sistema neuronal que tem como função procurar proteger a criança (e as pessoas em geral) da dor e das ameaças.

Este Sistema dá origem a respostas muito básicas, e inadequadas a maior parte das vezes. Já sabemos quais: luta, fuga, submissão, paralisação e dissociação. 

Ora, a criança, pelo seu tamanho e pela sua fragilidade face ao adulto, não tem as opções de lutar nem de fugir. Assim, só lhe resta a submissão, a paralisação e a dissociação. Se estas respostas se tornam num hábito pela prática continuada de castigos corporais, a aprendizagem que ela faz para a vida não é minimamente positiva (isto é, se não tivermos um ideal para ela de um futuro adulto robotizado e neurótico). Além de criar um stress continuado do organismo.

A ativação deste sistema pode bloquear a estimulação e o desenvolvimento dos outros sistemas – e o que não se usa, perde-se (“Use it or lose it”, como dizem os anglo-saxónicos). Por exemplo, no:

  • Sistema Focado na Busca de Recursos e de Incentivos – as crianças ficam apáticas, desinteressadas, “preguiçosas”, deprimidas, etc.
  • Sistema Focado na Tranquilização, na Ligação aos Outros e na Segurança Afetiva – as crianças ficam ansiosas, irritadiças, pouco sociáveis, pouco empáticas, sem consideração pelos outros (incluindo pela família).

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Felizmente, a ciência propõe alternativas aos castigos corporais que apresentam a vantagem adicional de estimularem estes dois últimos sistemas. Na verdade, os métodos educativos que estimulam estes sistemas constituem o cerne da chamada parentalidade positiva.

Mesmo quando se tratar de situações graves ou muito graves, devemos sempre procurar que as nossas ações estimulem o menos possível o sistema de ameaça da criança. Recorde-se mais uma vez que qualquer tipo de comportamento crítico ativa o nosso sistema de ameaça. 

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Que ações nossas podem ajudar então a criança a estimular os outros dois sistemas?

Resumidamente, mostrar compreensão (em relação a ações passadas menos bem conseguidas por parte da criança), apoiar (agora e aqui, no presente), e encorajar (para o futuro) atitudes e comportamentos, positivos e construtivos (mas que estejam ao alcance da criança, a fim de não a frustrar).

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Concretamente, que alternativas a ciência propõe? Eis algumas:

  • Valorizar, elogiar e encorajar os comportamentos positivos.
  • Conversar com a criança para saber o que a está verdadeiramente a incomodar; depois, ajudá-la a resolver o problema e a ultrapassá-lo.
  • Ignorar comportamentos negativos insignificantes.
  • Quando se trate de comportamentos mais graves, usar time-outs
  • Também nos casos graves, combinar consequências, que incluam sempre que possível a reparação do mal feito.

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Na próxima aula, voltaremos um pouco a estas práticas de disciplina positiva.

Até lá, uma ótima semana para todos! Com um imenso obrigado pela participação de todos a tornar estas aulas muitíssimo vivas e sumamente interessantes!


quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Os castigos corporais na educação de crianças

 












Terminámos a aula passada com uma primeira questão de carácter educacional sobre a qual precisamos de refletir:

Qual é o futuro adulto que desejamos criar?

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Várias características ideais foram listadas. Elas variam com o que cada família mais valoriza. Mas, procurando uma abrangência de todas elas, podemos talvez chegar à conclusão de que todos pretendemos que a criança aprenda:

  • A regular seu próprio comportamento;
  • A manter-se longe de danos; 
  • A melhorar a sua capacidade cognitiva, socio emocional, e as suas competências de funcionamento executivo;
  • A adotar para si os padrões positivos de atitude e de comportamento ensinados pelos seus pais e pelos seus cuidadores.

Mas como consegui-lo?

  • O principal é, sem dúvida, dando o exemplo. Só assim se consegue que a criança realmente interiorize as atitudes e comportamentos que desejamos.
  • A seguir, virá necessariamente o recurso constante ao diálogo e à argumentação pacífica, usando de paciência e compreensão (por exemplo, não julgando para condenar, saber primeiro o porquê das suas ações).
  • Tudo isto tendo por base um vínculo emocional de amor. Só se aprende bem no contexto de uma relação positiva. Sem relação, as aprendizagens são nulas ou, pelo menos, muito pobres.
  • Esse vínculo manifesta-se, por exemplo, dando um reforço positivo frequente às atitudes e comportamentos assumidos pela criança.

Isto garante que as crianças aprendam tudo o que queremos para elas? Ajuda muito, mas claro que não. Há a questão do temperamento, proveniente da genética (considera-se que o peso desta anda por volta dos 50%). E os educadores não conseguem controlar todos os contextos em que a criança se move e que também a influenciam: primeiro na creche, depois na escola, no clube, na casa dos amigos, etc.

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Na sequência disto, impõe-se a pergunta:

Pode-se ensinar atitudes e emoções positivas (que estão por detrás dos nossos pensamentos e ações construtivos), utilizando meios agressivamente negativos (palmadas, por exemplo)?

Para exemplificar esta questão: pode-se encorajar e treinar qualquer pessoa a andar de bicicleta dando-lhe palmadas de castigo, sempre que cometer erros?

A ambas as perguntas, podemos responder que não. O que parece ser preferível e mais eficaz é ir encorajando e treinando a criança na atividade que queremos que ela desempenhe bem, até ela ficar capaz de a fazer por si própria, sem a nossa ajuda e sem a nossa vigilância.

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No entanto, há quem aposte nos efeitos “benéficos” do medo infligido de forma violenta.

Esta última hipótese deverá ser posta fora de causa. Vamos perceber porquê.

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Segundo o Comité das Nações Unidas pelos Direitos da Criança, no seu Comentário Geral Nº 8 (2006), os castigos corporais são definidos como "qualquer castigo no qual a força física é utilizada com a intenção  de causar algum grau de dor ou desconforto, mesmo que leve".

Exemplos mais comuns:

  • Bater nas crianças (estaladas, bofetadas, sovas) com a mão ou com algum objeto: chicote, vara, cinto, sapato, colher de pau ou semelhante.
  • Pontapear, sacudir ou empurrar as crianças, 
  • Arranhá-las, beliscá-las, ou mordê-las, 
  • Puxar os cabelos ou dar pancadas nas orelhas,
  • Obrigá-las a ficar em posições incómodas, 
  • Produzir-lhes escaldões ou queimaduras, 
  • Obrigá-las a ingerir alimentos fervendo ou com outros produtos (por exemplo, lavar as suas bocas com sabão ou obrigá-las a engolir alimentos picantes).

Em conclusão, na consideração do Comité:

O castigo corporal é sempre degradante.

Não esquecendo as formas não-físicas de castigos que são cruéis ou degradantes e, portanto, incompatíveis com a Convenção. Por exemplo, os castigos em que "a criança é menosprezada, humilhada, desacreditada, convertida em bode expiatório, ameaçada, assustada ou ridicularizada".

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Há algo que é importante ressalvar aqui.

O ideal de adulto no qual desejamos que as nossas crianças se tornem é dos mais elevados. Mas nós não somos perfeitos, pelo que nem sempre conseguimos dar os melhores exemplos.

Nessas situações, temos sempre uma forma de continuar pelo exemplo a educar bem. Se procedermos mal, podemos sempre pedir desculpa e explicar que errámos, que não conseguimos fazer melhor. Assim, mostramos que continuamos a valorizar as melhores atitudes e comportamentos, mas sem hipocrisia.

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Vamos agora ver o que a ciência concluiu sobre os castigos corporais.

Provocam danos físicos diretos (no cérebro em desenvolvimento, por exemplo) e indiretos (aumentando os níveis de cortisol no organismo, por exemplo).

Aumentam agressões entre crianças e de crianças para adultos, diminuindo a empatia e a compaixão pelos outros. Veja-se, nomeadamente, o exemplo de São Cassiano.

Causam vários problemas de Saúde Mental (ansiedade, depressão, obsessões, etc.).

São inúteis para motivar comportamentos bons e mais saudáveis, antes promovem mentir, copiar nos testes (procurando não ser apanhadas), faltar às aulas, desafiar, consumos, e suicídio.

Estimulam futuros comportamentos agressivos: de delinquência, de violência, de abuso de poder e de ausência de respeito, para com outros que sejam mais fracos.

Ensinam que causar dor e sofrimento a alguém se justifica quando uma pessoa se sente frustrada.

Só muito parcialmente são eficazes para acabar com alguns maus comportamentos. Em estudos feitos através de filmagens do que se passa nas famílias, em suas casas, observou-se que «Os efeitos do castigo corporal foram transitórios: em 10 minutos, a maioria das crianças (73%) havia retomado o mesmo comportamento pelo qual haviam sido punidas.»

Fomentam a Reatância Psicológica: Reflitamos no provérbio português que nos avisa que “Não é com vinagre que se apanham moscas.”

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Iremos continuar com o que a ciência nos diz sobre os castigos corporais.

Até lá, um muito obrigado pela excelente participação de todos e votos de uma ótima semana.


Resumo da aula de 23-06-2026

  Link para o vídeo: Aula de 23-06-2026