Saber como construir uma Civilização que promova a Felicidade de todos

terça-feira, 30 de maio de 2023

Perguntas das académicas - 2

 

(Booking.com, página consultada em 20-05-2023)

A lembrar tristemente tempos antigos em que não eram crianças que não eram admitidas, mas, sim, negros, judeus e cães...

A provar a existência atual de um claro preconceito contra as crianças. O que virá a seguir? Que "Não são permitidos deficientes físicos"? Ou "velhos"? Ou...?

-

Continuamos com as perguntas dos académicos: Como conversar com alguém que manifesta pouca vontade de viver?

Tal como em todos os casos que envolvam relações pessoais, uma sugestão é seguir os quatro pilares:

  1. Afeto Incondicional; 
  2. Escuta Ativa; 
  3. Limites (estes devem existir, mas apenas quando temos de avisar que não vamos esconder, se houver, a intenção de se autodestruir).
  4. Valorização.

De preferência, confronto nunca, nem qualquer outra técnica de psicologia reversa; esta é uma estratégia confusa, manipuladora, desonesta, e raramente funciona

O que se deve fazer é…

Começarmos por perguntar o que se passa com a pessoa, o que lhe está a acontecer, mostrando o nosso interesse genuíno, e assegurando-lhe que estamos com ela e que não a abandonaremos.

Ao fazer perguntas à pessoa sobre este tema, não estamos a encorajá-la a considerar o suicídio. Pelo contrário, estamos a proporcionar-lhe um escape para desabafar em vez de agir.

Dêmos-lhe espaço para falar sem nenhum receio de que a vamos julgar e criticar. 

Ouçamos com empatia, sem interromper nem dar conselhos.

Agradeçamos-lhe a sua confiança em nós e a sua coragem por falar de algo que é tão difícil.

Discretamente, procuremos reforçar a autoestima e o amor próprio da pessoa, elogiando atos e características específicas dela (mas nada de generalidades, nem de exageros que a possam levar a duvidar de que estamos a ser sinceros).

Perguntemos-lhe o que se pode fazer, neste preciso momento. Por exemplo, podemos oferecer-nos para fazer algo em conjunto com ela, a fim de abrir uma pausa que alivie o peso que a pessoa está a sentir (por exemplo, darem um passeio juntos ou outra coisa qualquer que seja do seu agrado).

No fim, podemos perguntar-lhe qual a ajuda que podemos dar e de que ela acha que precisa. 

Entretanto, podemos sugerir que façamos juntos algumas respirações profundas pelo nariz. Investigações recentes mostram que este simples ato de respirar profundamente melhora a memória e o processamento das emoções.

Encorajemos a pessoa a recorrer a ajuda profissional, porque a pessoa pode precisar de mais ajuda do que aquela que nós podemos dar. Nomeadamente, indiquemos-lhe a quem ela pode recorrer. Nós próprios também podemos pedir ajuda profissional.

Ministério da Saúde - SNS - Contactos e Serviços Disponíveis

https://saudemental.min-saude.pt/estou-com-pensamentos-de-suicidio-o-que-devo-fazer/

-

Uma última pergunta foi feita no sentido de saber qual a validade da seguinte afirmação:

“As crianças devem ter parceiros sexuais”, dizem a ONU e a OMS


Vamos verificar, seguindo uma sucessão de critérios, desde o mais simples até ao mais moroso e complexo.

-

1º Critério: Usar de bom senso

É razoável que a ONU e a OMS estejam a defender isto publicamente para todo o mundo, e nenhum país nem nenhuma das grandes religiões se insurja? Quando se está a combater os casamentos precoces de crianças em todo o mundo?

Não, não é.

-

2º critério: consultar uma organização em quem se confie

No site Vatican News em português, fiz uma pesquisa com os termos “Educação sexual de crianças” e
“Parceiros sexuais de crianças”.

Não apareceu nada do que é referido na alegação acima.

-

3º Critério: Vamos verificar as fontes

Primeiro, dois sites que desmentem com factos aquela alegação:

É falso que a ONU recomende que crianças tenham parceiros sexuais

Finalmente, vamos ao relatório em questão:

Orientações técnicas internacionais de educação em sexualidade: uma abordagem baseada em evidências

Primeiro que tudo, pelo título vemos que são "Orientações", não são "Diretivas":

(Entre parêntesis indicam-se as páginas deste relatório)

(12) As Orientações foram desenvolvidas para auxiliar autoridades de educação, saúde e outras áreas relevantes no desenvolvimento e na implementação de programas e materiais para a educação abrangente em sexualidade realizada dentro e fora da escola.

Portanto, estas Orientações são também úteis para as famílias saberem o que deve ser ensinado ou não, e como.

(13) as Orientações são de caráter voluntário, visto que reconhecem a diversidade dos diversos contextos nacionais, bem como a autoridade dos governos em determinar o conteúdo dos currículos educacionais em seus países.

(16) A Educação Integral em Sexualidade (EIS) deve ser realizada em ambientes formais e não formais e possui as seguintes características:

(17) Capaz de desenvolver as habilidades para a vida necessárias para apoiar escolhas saudáveis – isto inclui a capacidade de refletir e de tomar decisões informadas, comunicar e negociar com eficácia e demonstrar assertividade. Tais habilidades podem ajudar crianças e jovens a formarem relacionamentos respeitosos e saudáveis com familiares, colegas, amigos e parceiros amorosos ou sexuais.

A frase "As crianças devem ter parceiros sexuais" acima nunca aparece no relatório. Aliás, o relatório defende exatamente o oposto, mas
 

Como disse, o relatório visa exatamente o oposto, como se pode ver:

(30) A revisão [feita em 2016] reafirma que programas de educação em sexualidade com base em currículos contribui para:

  • adiamento do início das relações sexuais
  • frequência menor das relações sexuais
  • quantidade menor de parceiros sexuais
  • redução das práticas de risco
  • aumento do uso de preservativos
  • aumento do uso de anticoncepcionais

A revisão das evidências realizadas em 2016 conclui que a educação em sexualidade tem efeitos positivos

-

Em conclusão, aquela alegação de que "As crianças devem ter parceiros sexuais" não é verdadeira.

Infelizmente, quando as pessoas combatem ideias com recurso a mentiras, 

  • estão a mostrar ser imorais;
  • estão a dar a ideia de que sabem que não têm razão;
  • os seus pontos de vista não são levados a sério (a não ser por fanáticos);
  • e acabam a oferecer a vitória ao adversário.

-

Na verdade, segundo um estudo de 2019 sobre moral, as pessoas que exageram a sua própria moralidade e que enfatizam a imoralidade dos outros, não têm comportamentos (principalmente, privados) a condizer – ou seja, sofrem de Hipocrisia Moral.

-

Entretanto, o discurso passou a ser ligeiramente mais moderado porque já não inclui aquelas mentiras declaradas, embora ainda diga outras.

A mesma pessoa agora diz:

Acabaram com a família, acabaram com o casamento, acabaram com os valores cristãos, e agora querem acabar com a inocência das CRIANÇAS 👇 Vamos permitir?

Ninguém acabou nem com a família, nem com o casamento (aliás, agora há até mais possibilidades de casamento), nem com os valores cristãos (embora é verdade que estes não são mencionados nem na Constituição Portuguesa nem na Europeia).

Mais uma vez, não podemos deixar de refletir que, quando começam com mentiras, descredibilizam o resto. O que é uma pena pois a questão final da inocência das crianças parece-me diferente. Esta, sim, seria importante, aqui, discuti-la seriamente.

Ora, poderíamos tê-lo feito, se não tivéssemos que lidar com as mentiras que foram ditas anteriormente. Mas, entretanto, a aula chegou ao fim.

A tod@s muito obrigado pela participação preciosa e votos de boas férias!


terça-feira, 23 de maio de 2023

Perguntas das académicas

 


1ª pergunta: O que fazer quando há mudanças de comportamento para pior em crianças anteriormente bem comportadas?

O programa de 4 passos é transversal a todas as idades e a todas as situações (com adaptações): 

  1. manifestar afeto incondicional e empatia 
  2. escutar ativamente (inclui perguntar com cuidado, não interromper, não criticar, nem dar conselhos a menos que sejam pedidos) para descobrir o que se passa (com a criança e com as circunstâncias que levaram ao problema).
  3. combinar os limites que minimizem frustrar as necessidades de todos.
  4. e, depois, usar de positividade, para resolver o problema, valorizando a criança, não a vendo como má e focando-se nas soluções.

É preciso estar num estado de espírito recetivo para se poder comunicar com proveito. Se, no momento, ficarmos zangados, é útil esperarmos até as emoções acalmarem, ao mesmo tempo que procuramos pôr-nos no lugar da criança e verbalizar o que sentimos. Em seguida, esperamos com paciência pelas reações da criança.

Indicam-se a seguir algumas sugestões complementares às orientações anteriores:

Quando o afeto e a disponibilidade para a escuta são difíceis, lembrar que, se há mau comportamento, há sofrimento.

Se há sofrimento, há necessidades importantes que não estão a ser satisfeitas. 

Descobrir quais são essas necessidades (não são os “apetites”, mas as referidas na pirâmide de Maslow), procurando entender completamente o que a criança nos quer dizer (pelas palavras que diz, pela forma como fala, pelos gestos que faz e pelos atos que realiza). 

A mãe de todas as necessidades de qualquer criança é ser amada.

Outras necessidades fundamentais da criança são ser ouvida, aceite e compreendida.

Muitas vezes, não precisamos de dizer nada para mostrar afeto, um abraço pode dizer tudo.

Por vezes, com crianças pequenas, as nossas perguntas não suscitam nenhuns pensamentos significativos que consigam partilhar, apesar de elas saberem o que as incomoda e o que as faz sofrer. Nestas ocasiões, convém usar métodos mais indiretos de inquirição.

Uma forma de conseguirmos que a criança mais pequena se abra connosco é contar uma história e/ou pedir para ela fazer um desenho à vontade. Depois, conversamos, perguntando a sua interpretação, dizendo o que vemos e pedindo para ela nos explicar.

Outra forma é perguntar-lhe o que ela desejaria que fosse diferente na sua vida: assim ela sente-se ouvida, validada e compreendida; ficamos a saber melhor o que se passa; ajuda a obter a cooperação da criança (explicando que esta é importante para satisfazer a necessidade que ela relatou).

Pode-se conversar primeiro com a criança em particular. Depois, às vezes, pode ser útil conversar com a família em geral para a criança saber que estão todos interessados em ajudá-la.

Em qualquer altura, em que sentimos não estar a conseguir ajudá-la, podemos sempre levá-la a um psicólogo infantil.

-

2ª pergunta: Como ajudar uma adolescente a lidar com a perda da sua amiga?

O programa de 4 passos é transversal a todas as idades e a todas as situações (com adaptações): 

  1. manifestarmos afeto incondicional e empatia pela adolescente
  2. escutá-la ativamente (inclui perguntar com cuidado, não interromper, não criticar, nem dar conselhos a menos que sejam pedidos) para descobrir o que se passa (com a adolescente e com as circunstâncias que levaram ao problema).
  3. investigarmos os limites que permitem que as suas necessidades não sejam frustradas,
  4. e, depois, ajudarmos a adolescente a encontrar soluções, valorizando-a e acreditando na sua capacidade para o fazer.

Sermos afetuosos com ela e mostrarmos que estamos SEMPRE do lado dela (em particular, nunca perguntar “Mas o que é que tu fizeste para que ela se zangasse contigo?”, porque estamos a sugerir que ela foi culpada).

Escutá-la com simpatia e compreensão, encorajando-a a expressar os seus sentimentos e pensamentos sobre a situação.

Não reagirmos em excesso ao ponto de ela se arrepender de ter falado connosco.

Mostrarmos disponibilidade para responder a perguntas que ela queira fazer. Mas evitarmos a tentação de dar conselhos que ela não esteja a pedir.

Ajudá-la a pensar se era uma amizade boa ou se era tóxica. A resposta a esta pergunta irá determinar de certa forma o que fazer a seguir. Se a amizade era boa, há que pensar no que ela pode fazer para a recuperar. É o que vamos ver a seguir.

-

Como tornar possível recuperar uma amizade?

Ir falar com a amiga, tendo em mente os 4 passos e perguntar-lhe o que se passa/passou (ao mesmo tempo, pode dizer-lhe o que está a sentir, se não for agressivo, devendo incluir aqui o afeto que sente por ela). Com genuínas afeição e empatia, ou seja, vontade de a compreender (nunca para a julgar nem para a criticar), e de saber quais as suas necessidades (que foram frustradas).

Depois de ouvir a amiga, pedir-lhe desculpa por a ter feito sentir-se mal (mesmo que ache que a amiga não tem razão).

Dizer-lhe quais as suas necessidades também (incluir aqui, se necessário, os limites que gostaria de ver respeitados).

Comunicar-lhe (pela positiva) o que gostaria que acontecesse.

Perguntar-lhe o que pode fazer para pôr as coisas entre elas bem outra vez.

O processo pode ser bloqueado pela amiga em qualquer destes passos, sem culpa nenhuma de ambas as partes. Há apenas uma divergência de objetivos de vida e de caminhos para lá chegar.

Neste caso, separar-se sem fechar portas, com o 4º passo (elogio e valorização): por exemplo, referir à ex-amiga como essa amizade foi importante e que não será esquecida.

Em seguida, seguir os passos a tomar quando ela conclui lá atrás que a amizade é tóxica e quer avançar sem ela.

Mais uma vez, o que nós, adultos, podemos fazer? Não darmos conselhos. Não fazermos julgamentos, nem em relação a ela, nem às suas ideias, nem às suas amizades. Oferecermos o nosso apoio e a nossa ajuda no que ela precisar e pedir.

Eventualmente, podemos sugerir que procure apoio nas amizades atuais, que  recupere amizades antigas que estavam um pouco abandonadas, que se abra para fazer novas amizades (voluntariado, clubes, etc.) e que se proteja e se afaste de contactos tóxicos nas redes sociais.

Finalmente, se o sofrimento continuar e não conseguir superá-lo, podemos sugerir o recurso a um psicólogo que a possa ajudar melhor.

-

Uma ótima semana para tod@s!


terça-feira, 9 de maio de 2023

Castigos corporais (conclusão). Valorizar e estimular progressos na criança.

 


Vamos continuar com o que, sobre o castigo corporal, muita gente acredita:

8. Sem o uso do castigo corporal para disciplinar as crianças, elas tornam-se mimadas e ficam sem regras.

9. O castigo corporal ensina uma criança a respeitar os outros. (ensina a ter medo, sim; a ter respeito, não)

10. O castigo corporal deve ser usado para disciplinar uma criança de cada vez que ela se comporta mal.

Todas estas crenças são falsas, como foi demonstrado até à exaustão pela investigação científica. Em particular, a antepenúltima (8) é tragicamente falsa!

Efetivamente, esta crença nasce de uma ligação de causa e consequência que, pura e simplesmente não existe. Dar mimo, isto é, amor em abundância, não tem nada a ver com a criança ficar sem limites e sem regras. Aliás, um amor verdadeiro, que não seja apenas uma manifestação de um sentimentalismo barato, implica que se estabeleçam limites e regras ao que a criança pode fazer, a fim de garantir a sua segurança e o seu bem-estar, bem como os de todos os outros que convivam com ela.

-

Há mais algumas crenças que não foram seleccionadas por este estudo e que acrescentarei às anteriores:

11. Os pais têm o dever de correção e, se for preciso bater, bate-se. (os pais têm o dever de correção, mas não têm o direito de cometer o crime de bater)

12. Os castigos corporais são sempre dados por amor e para segurança da criança. (não é verdade: o que a investigação demonstra é que os castigos corporais são aplicados porque os pais perderam a paciência)

13. As crianças esquecem com facilidade e recuperam bem de tudo o que de mal lhes façamos. (não é verdade: nem esquecem com facilidade, nem recuperam bem do mal que lhes fazem - aliás, se isto fosse verdadeiro, então bater para quê, se elas esquecem com facilidade?)

14. Uma última crença consiste em as pessoas que batem acreditarem que, tendo-se tornado boas pessoas, isso aconteceu por causa dos castigos corporais que receberam na sua vida. Não é verdade. Elas tornaram-se boas pessoas apesar dos castigos corporais. Na verdade, elas conseguiram superar muito do mal que os castigos corporais lhes trouxeram. Ou seja, o mérito de se terem tornado boas pessoas é muito mais delas do que dos seus violentos educadores.

-

Existem vários fatores que concorrem para haver pessoas que continuam a agredir com violência os seus filhos:

  • Maus tratos sofridos na infância
  • Falta de informação e de conhecimento
  • Cultura da época
  • Religiões que parecem favorecer os castigos corporais a todas as pessoas
  • Regiões com hábitos diferentes, em que algumas defendem mais os castigos corporais
  • Cansaço e outras pressões com origem no contexto onde as pessoas vivem o seu dia-a-dia (nomeadamente nos seus empregos)
  • O clima político e socioeconómico do país – onde há mais solidariedade social e menos violência do Estado, há menos agressões entre as pessoas em geral.

Note-se ainda que o ser humano é muito complexo e não encaixa em nenhuma teoria, pelo que aqui não se fala de causas, mas apenas de condições que facilitam o eclodir da violência. E que continuam a alimentar aquelas crenças.

-

A encerrar este tema dos castigos corporais, aqui ficam alguns alertas do Instituto de Apoio à Criança:




📞 LINHA SOS CRIANÇA - 116 111

Uma equipa técnica especializada nos problemas que afetam as crianças e os jovens está deste lado para ouvir, acompanhar, ajudar, proteger e informar! 💙

Outros contactos disponíveis:

WhatsApp – 966 065 750 / 966 065 767 / 913 069 404

Chat online - www.iacrianca.pt

Email – soscrianca@iacrianca.pt


Linha SOS Criança Desaparecida - 116 000.

-

Para terminar este capítulo sobre o Estabelecimento de Limites e de como o fazer, lembro que só nos detivemos nos castigos corporais. Infelizmente, na nossa sociedade, as crianças são sujeitas ainda a muitos outros tipos de violência. Como, por exemplo, abuso sexual, abuso laboral, negligência e violência psicológica (da qual a violência verbal é apenas uma das suas várias componentes).

A luta para que as crianças sejam tratadas e educadas com a mesma justiça e com a mesma humanidade que os adultos exigem para si mesmos ainda vai muito no princípio.

-

4. Valorizar e estimular progressos na criança

(Foto tirada de Guiainfantil.com)


Vamos agora para o quarto pilar de uma educação para a paz. Vamos falar de valorizar e estimular progressos nas atitudes e no comportamento verbal e não verbal da criança.

Falo de "progressos" e não de resultados porque estes nem sempre são os que esperaríamos, nem muitas vezes são imediatos. Os progressos, sim, esses vão-se desenvolvendo ao longo do tempo e, portanto, dão muito mais oportunidades de elogiar a criança e de a encorajar no caminho certo.

Como podemos fazer isto?

  • Primeiro, termos em atenção que há muito mais coisas positivas do que negativas para valorizar na criança (aliás, em todos nós). Por isso, não procuremos o pormenor irrelevante para humilhar; procuremos antes o que é verdadeiramente importante para elogiar.
  • Proporcionemos experiências de sucesso de diferentes tipos, com desafios adaptados à idade da criança (veja-se foto acima).
  • Mostremos compreensão e tolerância com as suas falhas (pois todos as temos, não são só as crianças; e também não gostamos que as utilizem para nos humilhar).
  • Celebremos as vitórias da criança com alegria e orgulho. Às vezes podemos até fazê-lo com uma recompensa extra (não tem de ser material, pode ser concedendo um privilégio).
  • Elogiemos principalmente os esforços que desenvolveu, embora também possamos fazê-lo com os resultados que obteve (o problema com estes é que dependem de outras coisas que a criança não controla, enquanto os esforços estão mais sob o seu controlo pessoal). 
  • Reconheçamos e apreciemos todas as melhorias que observarmos na criança.
  • Valorizemos e encorajemos a persistência que ela revela para alcançar os seus objetivos e para ultrapassar as dificuldades que encontra.

-

A ausência de elogios tem várias consequências pouco positivas.

  • Receber um elogio da parte daqueles cuja aprovação mais se deseja (é o caso da criança em relação a nós), é o melhor sinal que ela pode receber de que o que fez foi bem sucedido (mesmo que não haja resultados visíveis).
  • Quando não reagimos ao que a criança faz de bem, ela sente que foi mal sucedida ou que não devia ter feito o que fez.
  • Assim, ela não o repete.
  • Se não o repete, não o aprende.
  • Se o insucesso se repete, ela aprende o insucesso (ela aprende o que se repete - seja qual a forma que ele tome, desde a violência até ao azedume e à distração).

-

Tenhamos em atenção que um comportamento menos bom ou de resistência relacionado com o desempenho escolar por parte da criança pode sinalizar 

  • problemas relacionais na escola;
  • dificuldades de atenção ou de aprendizagem;
  • ou, às vezes, simplesmente um problema de audição ou de visão, por exemplo. 

É preciso despistar estas possibilidades, antes de pensarmos em criticá-la e condená-la (e muito menos de castigá-la!).

-

Antes de terminar o tema de como educar para a paz, gostaria de esclarecer que, evidentemente, a disciplina sem violência poderá ser imperfeita (há poucas coisas perfeitas no nosso mundo) – só que também é verdade que, com violência, é pior.

Com as crianças, hoje em dia,  temos de escolher ou fazer coisas possivelmente ineficazes, ou fazer coisas decididamente criminosas. Bater numa criança é legalmente um crime, mas há outras coisas que, embora não haja lei que as proíba, são também crimes. Devemos evitar fazê-las. Falámos delas ao longo destes meses, mas, genericamente, podemos incluir tudo o que lhe cause um sofrimento físico ou mental que está na nossa mão impedir, sem que daí advenha um prejuízo para ela.

-

Mas têm os Educadores e os Cuidadores de ser perfeitos? Não. Nem o devem ser.

Por exemplo, os pais não devem responder sem falhar a todas as necessidades da criança, senão ela também não cresce (não aprende a lidar com dificuldades, a ultrapassá-las, etc.). A única necessidade cuja satisfação não deve ser nunca negada é a do AMOR!

Por isso, uma mãe ou um pai só precisam de ser suficientemente bons. A imperfeição é humana. As crianças preferem-na.

Até porque pais perfeitos constituem uma carga suplementar de culpabilização para os filhos durante toda a sua vida (devido a nunca conseguirem igualar a perfeição dos pais).

-

Em resumo, os 4 pilares de uma educação para a paz são:

  1. Manifestar sempre Afeto / Amor pela criança.
  2. Escutar Ativamente a criança.
  3. Ser Firme (não rígido) no Estabelecimento de Limites.
  4. Valorizar e Encorajar a criança, estimulando-a a alcançar a melhor versão de si mesma.

-

Gostaria de pedir a tod@s que, para a próxima aula, trouxessem uma pergunta que desejassem ver tratada nas próximas semanas. Que esteja mais ou menos dentro do âmbito da Psicologia, de preferência. Uma pergunta que vos seja realmente importante e premente.

-

Obrigado e uma ótima semana para tod@s!


quarta-feira, 3 de maio de 2023

Um país injusto, um país oprimido pela pobreza

 


Para as pessoas que desconhecem qual o meu posicionamento político (entendido no sentido lato e não de partidos), esclareço aqui o seguinte:

Eu estou sempre do lado dos mais fracos e dos derrotados. E sempre contra os violentos, contra os malvados, e contra os ofensivos e desrespeitosos. Acima de tudo, estou contra os carrascos e seus mandantes, colocando-me irredutivelmente do lado das vítimas. 

Assim, nunca estive, estou ou estarei do lado de quem envolve os seus povos em guerras (para mim, dentro das soluções inaceitáveis, a guerra é a mais inaceitável de todas). Por isso, nunca salazarista, nunca putinista.

E só sou contra os fortes (incluindo os ricos) quando abusam do seu poder e da sua riqueza, lançando os outros na miséria.

Vejamos como isso acontece.

Recordemos como o Estado (isto é, todos nós) tem gasto muito mais do que isto com os bancos todos os anos:

“A Banca custou ao Estado 22 mil milhões de euros entre 2008 e 2021.”

22.000.000.000 € / 13 anos = 1.692.307.692€ por ano

Ou seja, cerca de 1700 milhões de euros por ano. Desta vez, foram “só” 459 milhões de euros! Mas o suficiente para fazer duplicar, note-se, duplicar o défice!

Como eu gostaria de ouvir os partidos de direita a reagirem contra isto! Mas só os ouvimos a bramar contra o Rendimento Social de Inserção (RSI). Vamos comparar.

Nos últimos anos, o Estado tem gasto com o RSI, por ano, entre 300 e 400 milhões de euros. Mas a beneficiar perto de 200 mil pessoas e 100 mil famílias em dificuldades. Em vez da meia dúzia de bancos e de banqueiros com ordenados milionários.

Mas o problema não está só nos bancos…


Para dar estes dividendos (e isto só no PSI, isto é, nas empresas com mais de 1000 milhões euros de capitalização), nem consigo imaginar quantos terão sido os lucros!

Na verdade, não somos um país pobre, somos um país que está a ser claramente empobrecido pelos mais poderosos e mais ricos! 

Uma das formas que eles usam para empobrecer o país é pagando salários baixos e promovendo a precariedade.

Segundo o estudo Faces da pobreza em Portugal (2021), da Fundação Francisco Manuel dos Santos (p.19.), 32,9% (um terço) dos pobres em Portugal são trabalhadores. Isto é, são pessoas que com o que ganham não conseguem deixar de ser pobres, de tal maneira são mal pagos.

E, para quem acha que os pobres são uns malandros que não trabalham, será útil ver, segundo o mesmo estudo, os perfis da pobreza em Portugal:

1. «Trabalhadores»: 32,9%;

2. «Precários»: 26,6%;

O que é um “precário”? É

Uma pessoa que está numa relação laboral, no contexto da qual não consegue aceder a uma série de direitos que estariam afetos a essa relação laboral, por exemplo, a estabilidade, a remuneração garantida e periódica, o acesso a uma indemnização quando deixa de estar vinculada e o acesso a um sistema de saúde.

32,9 + 26,6 = 59,5%. Ou seja, mais de metade dos pobres trabalha!

3. «Reformados»: 27,5%;

4. «Desempregados»: 13%.

Portanto, os desempregados pobres que não trabalham e, eventualmente, talvez pudessem fazê-lo (digo talvez, porque aqui se incluem os doentes, os incapacitados, os que temporariamente estão sem trabalho, os analfabetos digitais, etc.), são pouco mais de 10% do número total de pobres.

Repare-se que, segundo o jornal online ECO,

A taxa de desemprego nunca foi tão baixa (5,8%) nem o número de pessoas empregadas foi tão elevado (4,9 milhões numa população ativa de 5,2 milhões pessoas).

Ou seja, apenas cerca de 300 mil pessoas estão atualmente desempregadas. Parece ótimo, não é verdade?

No entanto, segundo Luísa Loura, diretora da Pordata, e António Costa, primeiro-ministro de Portugal, sem apoios sociais, 4, 4 milhões de pessoas são pobres (têm rendimentos abaixo do limiar da pobreza - 554 euros mensais); passando para 1,9 milhões após as transferências sociais.

Como ficam as crianças neste panorama? Podemos imaginar, mas não é preciso, os números estão aí:

Segundo o Diário de Notícias

Cerca de uma em cada quatro crianças portuguesas com menos de 18 anos (22,9%) vivia, em 2021, em situação de pobreza ou exclusão social. (Eurostat)

E, segundo a ministra do Trabalho e da Segurança Social, Ana Mendes Godinho, o número de crianças em pobreza extrema, a nível nacional, é de 170 mil.

Lembremos que, há pouco mais de 2 anos, a Unicef alertou para os níveis crescentes da pobreza infantil em Portugal. Portugal era, a par de Itália e da Grécia, um dos países onde havia uma maior relação entre a pobreza infantil e a escassez de investimento em prestações familiares. Num relatório em que a Unicef admitiu que nos próximos cinco anos estes números deveriam aumentar.

É este o país que queremos? Onde até a vida e o bem-estar das crianças é completamente desprezado pelo grande capital? Eu não quero.

E termino, dizendo com Albert Camus:


Uma ótima semana para tod@s, com um grande obrigado pela participação entusiasmada!


Resumo da aula de 5-05-2026

  Link para o vídeo: Aula de 5-05-2026