Vamos acabar de analisar o que a ciência concluiu sobre os castigos corporais.
-
Os castigos corporais levam a que a criança assim castigada adquira um sentido moral distorcido e antissocial. Pelo que trazem à criança dificuldades acrescidas de adaptação social na escola, no clube, no grupo de amigos, etc.
-
Promovem nela uma maior propensão para acidentes, bem como para a adoção de hábitos prejudiciais, como fumar ou beber.
-
Tudo o que aqui se registou de mau sobre os castigos corporais ainda se torna pior em crianças que, temperamentalmente, são mais ansiosas ou zangadiças, ou ambas.
-
Mas a ciência há de ter descoberto alguns benefícios de se usarem os castigos corporais, ou não?
Não.
“Apenas um único estudo de 1981 com 24 crianças mostrou melhoria estatisticamente significativa, a curto prazo, na obediência, em comparação com estratégias alternativas - time-out e um grupo de controle” (isto é, não fazer nada).
No entanto, este estudo, por melhor que tivesse sido realizado, apresenta muitas limitações.
Primeiro, porque analisa apenas 24 crianças. É pouco, muito pouco para se poderem fazer generalizações minimamente interessantes.
Segundo, só mostrou melhorias a curto prazo, o que vem confirmar estudos posteriores que referem a pouca eficácia dos castigos corporais a longo prazo.
Terceiro, só se debruçou sobre a obediência, o que me parece pobre como objetivo de uma educação de crianças.
Quarto, só comparou com a técnica do time-out e com não fazer nada. Não se comparou, por exemplo, com ouvir e conversar com a criança, algo que seria muito mais interessante de saber qual a diferença entre os dois métodos.
Portanto, apesar de ser o único estudo em décadas que mostra alguma vantagem nos castigos corporais, acaba por confirmar a pobreza de resultados deste tipo de educação.
Em suma, até ao momento, não existe nenhuma outra investigação que tenha descoberto que os castigos corporais trazem o que quer que seja de positivo.
-
Qual a razão profunda para os castigos corporais terem tão maus efeitos na criança?
Sobreativam o Sistema Focado na Ameaça, no Perigo e na Autoproteção, sistema neuronal que tem como função procurar proteger a criança (e as pessoas em geral) da dor e das ameaças.
Este Sistema dá origem a respostas muito básicas, e inadequadas a maior parte das vezes. Já sabemos quais: luta, fuga, submissão, paralisação e dissociação.
Ora, a criança, pelo seu tamanho e pela sua fragilidade face ao adulto, não tem as opções de lutar nem de fugir. Assim, só lhe resta a submissão, a paralisação e a dissociação. Se estas respostas se tornam num hábito pela prática continuada de castigos corporais, a aprendizagem que ela faz para a vida não é minimamente positiva (isto é, se não tivermos um ideal para ela de um futuro adulto robotizado e neurótico). Além de criar um stress continuado do organismo.
A ativação deste sistema pode bloquear a estimulação e o desenvolvimento dos outros sistemas – e o que não se usa, perde-se (“Use it or lose it”, como dizem os anglo-saxónicos). Por exemplo, no:
- Sistema Focado na Busca de Recursos e de Incentivos – as crianças ficam apáticas, desinteressadas, “preguiçosas”, deprimidas, etc.
- Sistema Focado na Tranquilização, na Ligação aos Outros e na Segurança Afetiva – as crianças ficam ansiosas, irritadiças, pouco sociáveis, pouco empáticas, sem consideração pelos outros (incluindo pela família).
-
Felizmente, a ciência propõe alternativas aos castigos corporais que apresentam a vantagem adicional de estimularem estes dois últimos sistemas. Na verdade, os métodos educativos que estimulam estes sistemas constituem o cerne da chamada parentalidade positiva.
Mesmo quando se tratar de situações graves ou muito graves, devemos sempre procurar que as nossas ações estimulem o menos possível o sistema de ameaça da criança. Recorde-se mais uma vez que qualquer tipo de comportamento crítico ativa o nosso sistema de ameaça.
-
Que ações nossas podem ajudar então a criança a estimular os outros dois sistemas?
Resumidamente, mostrar compreensão (em relação a ações passadas menos bem conseguidas por parte da criança), apoiar (agora e aqui, no presente), e encorajar (para o futuro) atitudes e comportamentos, positivos e construtivos (mas que estejam ao alcance da criança, a fim de não a frustrar).
-
Concretamente, que alternativas a ciência propõe? Eis algumas:
- Valorizar, elogiar e encorajar os comportamentos positivos.
- Conversar com a criança para saber o que a está verdadeiramente a incomodar; depois, ajudá-la a resolver o problema e a ultrapassá-lo.
- Ignorar comportamentos negativos insignificantes.
- Quando se trate de comportamentos mais graves, usar time-outs.
- Também nos casos graves, combinar consequências, que incluam sempre que possível a reparação do mal feito.
-
Na próxima aula, voltaremos um pouco a estas práticas de disciplina positiva.
Até lá, uma ótima semana para todos! Com um imenso obrigado pela participação de todos a tornar estas aulas muitíssimo vivas e sumamente interessantes!


