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terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Ainda o que a ciência nos diz sobre os castigos corporais

 


Vamos acabar de analisar o que a ciência concluiu sobre os castigos corporais.

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Os castigos corporais levam a que a criança assim castigada adquira um sentido moral distorcido e antissocial. Pelo que trazem à criança dificuldades acrescidas de adaptação social na escola, no clube, no grupo de amigos, etc.

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Promovem nela uma maior propensão para acidentes, bem como para a adoção de hábitos prejudiciais, como fumar ou beber.

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Tudo o que aqui se registou de mau sobre os castigos corporais ainda se torna pior em crianças que, temperamentalmente, são mais ansiosas ou zangadiças, ou ambas.

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Mas a ciência há de ter descoberto alguns benefícios de se usarem os castigos corporais, ou não?

Não.

Apenas um único estudo de 1981 com 24 crianças mostrou melhoria estatisticamente significativa, a curto prazo, na obediência, em comparação com estratégias alternativas - time-out e um grupo de controle” (isto é, não fazer nada). 

No entanto, este estudo, por melhor que tivesse sido realizado, apresenta muitas limitações.

Primeiro, porque analisa apenas 24 crianças. É pouco, muito pouco para se poderem fazer generalizações minimamente interessantes.

Segundo, só mostrou melhorias a curto prazo, o que vem confirmar estudos posteriores que referem a pouca eficácia dos castigos corporais a longo prazo.

Terceiro, só se debruçou sobre a obediência, o que me parece pobre como objetivo de uma educação de crianças. 

Quarto, só comparou com a técnica do time-out e com não fazer nada. Não se comparou, por exemplo,  com ouvir e conversar com a criança, algo que seria muito mais interessante de saber qual a diferença entre os dois métodos. 

Portanto, apesar de ser o único estudo em décadas que mostra alguma vantagem nos castigos corporais, acaba por confirmar a pobreza de resultados deste tipo de educação. 

Em suma, até ao momento, não existe nenhuma outra investigação que tenha descoberto que os castigos corporais trazem o que quer que seja de positivo.

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Qual a razão profunda para os castigos corporais terem tão maus efeitos na criança?

Sobreativam o Sistema Focado na Ameaça, no Perigo e na Autoproteção, sistema neuronal que tem como função procurar proteger a criança (e as pessoas em geral) da dor e das ameaças.

Este Sistema dá origem a respostas muito básicas, e inadequadas a maior parte das vezes. Já sabemos quais: luta, fuga, submissão, paralisação e dissociação. 

Ora, a criança, pelo seu tamanho e pela sua fragilidade face ao adulto, não tem as opções de lutar nem de fugir. Assim, só lhe resta a submissão, a paralisação e a dissociação. Se estas respostas se tornam num hábito pela prática continuada de castigos corporais, a aprendizagem que ela faz para a vida não é minimamente positiva (isto é, se não tivermos um ideal para ela de um futuro adulto robotizado e neurótico). Além de criar um stress continuado do organismo.

A ativação deste sistema pode bloquear a estimulação e o desenvolvimento dos outros sistemas – e o que não se usa, perde-se (“Use it or lose it”, como dizem os anglo-saxónicos). Por exemplo, no:

  • Sistema Focado na Busca de Recursos e de Incentivos – as crianças ficam apáticas, desinteressadas, “preguiçosas”, deprimidas, etc.
  • Sistema Focado na Tranquilização, na Ligação aos Outros e na Segurança Afetiva – as crianças ficam ansiosas, irritadiças, pouco sociáveis, pouco empáticas, sem consideração pelos outros (incluindo pela família).

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Felizmente, a ciência propõe alternativas aos castigos corporais que apresentam a vantagem adicional de estimularem estes dois últimos sistemas. Na verdade, os métodos educativos que estimulam estes sistemas constituem o cerne da chamada parentalidade positiva.

Mesmo quando se tratar de situações graves ou muito graves, devemos sempre procurar que as nossas ações estimulem o menos possível o sistema de ameaça da criança. Recorde-se mais uma vez que qualquer tipo de comportamento crítico ativa o nosso sistema de ameaça. 

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Que ações nossas podem ajudar então a criança a estimular os outros dois sistemas?

Resumidamente, mostrar compreensão (em relação a ações passadas menos bem conseguidas por parte da criança), apoiar (agora e aqui, no presente), e encorajar (para o futuro) atitudes e comportamentos, positivos e construtivos (mas que estejam ao alcance da criança, a fim de não a frustrar).

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Concretamente, que alternativas a ciência propõe? Eis algumas:

  • Valorizar, elogiar e encorajar os comportamentos positivos.
  • Conversar com a criança para saber o que a está verdadeiramente a incomodar; depois, ajudá-la a resolver o problema e a ultrapassá-lo.
  • Ignorar comportamentos negativos insignificantes.
  • Quando se trate de comportamentos mais graves, usar time-outs
  • Também nos casos graves, combinar consequências, que incluam sempre que possível a reparação do mal feito.

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Na próxima aula, voltaremos um pouco a estas práticas de disciplina positiva.

Até lá, uma ótima semana para todos! Com um imenso obrigado pela participação de todos a tornar estas aulas muitíssimo vivas e sumamente interessantes!


terça-feira, 17 de janeiro de 2023

O que a ciência diz sobre os castigos corporais

 


Vamos continuar a ver o que a ciência concluiu sobre os castigos corporais.

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Promovem o afastamento emocional das crianças relativamente aos pais, 

  • de quem desconfiam, 
  • de quem sentem medo 
  • e contra quem sentem revolta (talvez para o resto da vida?).

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Silenciam e escondem problemas pelos quais a criança esteja a passar. 

Recordemos que um mau comportamento é um alerta importante para sinalizar um problema presente na vida da criança. Porquê? 

Porque um mau comportamento tem as suas raízes em emoções negativas. Estas surgem quando o sistema de regulação de emoções focado na ameaça, no perigo e na autoproteção é ativado. A sua ativação resulta de uma avaliação do organismo que conclui que há qualquer coisa que está mal e que precisa de ser mudada. 

Se não se enfrenta o problema de base, é pouco provável que ele desapareça. E a criança sente-se cada vez pior por isso, mas também porque as suas necessidades não foram objeto de consideração pelos adultos, agravado com o facto de ainda por cima estar a ser castigada.

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Instituem um comportamento regressivo de obediência comandado pelo medo, em vez de um comportamento moralmente autorregulado, orientado autonomamente por valores de solidariedade e de boa convivência.

Por outras palavras, a criança aprende a fazer o bem pelo medo das consequências de o não fazer. E apenas para evitar castigos, e não por ser a coisa correta para se fazer.

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Prejudicam realmente o desempenho cognitivo. Podendo, em muitos casos de maus tratos prolongados, chegar a bloquear definitivamente o seu desenvolvimento.

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Provocam problemas emocionais, agravando os do presente, e expandindo-os no futuro: problemas de ansiedade, de depressão, de hostilidade, de instabilidade emocional e de desespero que levam algumas vezes ao suicídio ou às dependências de álcool ou drogas.

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Não ensinam as crianças a lidar com emoções difíceis, a não ser pela sua repressão. Que, se for levada ao extremo, acaba na automutilação ou mesmo no suicídio.

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Promovem baixos amor-próprio e autoestima.

Lembremo-nos de como nos sentimos humilhados sempre que fomos vítimas de violência física, tanto na infância como na idade adulta.

O amor-próprio existe quando reconhecemos que temos valor como seres humanos, independentemente do que fazemos ou do que conseguimos. A autoestima é o que pensamos e sentimos de nós próprios a partir das nossas realizações no mundo.

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Aumentam a probabilidade de, em idades posteriores, se aceitar ser vítima passiva de variados tipos de abusos físicos e psicológicos.

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Aumentam a probabilidade de, em adulto, reagir com violência com os seus próprios filhos, companheiro/a e pais.

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Continuaremos, na próxima aula, a ver o que a ciência tem a dizer sobre os castigos corporais. 

Antes disso, uma nota final.

Alguns de nós (talvez a maioria) educámos os nossos filhos essencialmente de acordo com o que sabíamos e com o que os outros nos diziam na altura. Hoje em dia, sabemos coisas que não se sabiam então. E damos conta de que cometemos alguns erros. E, possivelmente, sentimos remorsos por isso, o que é natural. 

Não devemos olhar demasiado para o passado. Aceitemos esses remorsos porque são um bom sinal de que estamos vivos, humanos e que mudámos para melhor. Usemo-los agora como uma energia positiva para fazer coisas (qualquer coisa, por mais insignificante que seja, é boa) que contribuam para melhorar o mundo, e a vida das crianças em particular.

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Até à próxima aula e uma ótima semana para todos!


quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Os castigos corporais na educação de crianças

 












Terminámos a aula passada com uma primeira questão de carácter educacional sobre a qual precisamos de refletir:

Qual é o futuro adulto que desejamos criar?

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Várias características ideais foram listadas. Elas variam com o que cada família mais valoriza. Mas, procurando uma abrangência de todas elas, podemos talvez chegar à conclusão de que todos pretendemos que a criança aprenda:

  • A regular seu próprio comportamento;
  • A manter-se longe de danos; 
  • A melhorar a sua capacidade cognitiva, socio emocional, e as suas competências de funcionamento executivo;
  • A adotar para si os padrões positivos de atitude e de comportamento ensinados pelos seus pais e pelos seus cuidadores.

Mas como consegui-lo?

  • O principal é, sem dúvida, dando o exemplo. Só assim se consegue que a criança realmente interiorize as atitudes e comportamentos que desejamos.
  • A seguir, virá necessariamente o recurso constante ao diálogo e à argumentação pacífica, usando de paciência e compreensão (por exemplo, não julgando para condenar, saber primeiro o porquê das suas ações).
  • Tudo isto tendo por base um vínculo emocional de amor. Só se aprende bem no contexto de uma relação positiva. Sem relação, as aprendizagens são nulas ou, pelo menos, muito pobres.
  • Esse vínculo manifesta-se, por exemplo, dando um reforço positivo frequente às atitudes e comportamentos assumidos pela criança.

Isto garante que as crianças aprendam tudo o que queremos para elas? Ajuda muito, mas claro que não. Há a questão do temperamento, proveniente da genética (considera-se que o peso desta anda por volta dos 50%). E os educadores não conseguem controlar todos os contextos em que a criança se move e que também a influenciam: primeiro na creche, depois na escola, no clube, na casa dos amigos, etc.

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Na sequência disto, impõe-se a pergunta:

Pode-se ensinar atitudes e emoções positivas (que estão por detrás dos nossos pensamentos e ações construtivos), utilizando meios agressivamente negativos (palmadas, por exemplo)?

Para exemplificar esta questão: pode-se encorajar e treinar qualquer pessoa a andar de bicicleta dando-lhe palmadas de castigo, sempre que cometer erros?

A ambas as perguntas, podemos responder que não. O que parece ser preferível e mais eficaz é ir encorajando e treinando a criança na atividade que queremos que ela desempenhe bem, até ela ficar capaz de a fazer por si própria, sem a nossa ajuda e sem a nossa vigilância.

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No entanto, há quem aposte nos efeitos “benéficos” do medo infligido de forma violenta.

Esta última hipótese deverá ser posta fora de causa. Vamos perceber porquê.

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Segundo o Comité das Nações Unidas pelos Direitos da Criança, no seu Comentário Geral Nº 8 (2006), os castigos corporais são definidos como "qualquer castigo no qual a força física é utilizada com a intenção  de causar algum grau de dor ou desconforto, mesmo que leve".

Exemplos mais comuns:

  • Bater nas crianças (estaladas, bofetadas, sovas) com a mão ou com algum objeto: chicote, vara, cinto, sapato, colher de pau ou semelhante.
  • Pontapear, sacudir ou empurrar as crianças, 
  • Arranhá-las, beliscá-las, ou mordê-las, 
  • Puxar os cabelos ou dar pancadas nas orelhas,
  • Obrigá-las a ficar em posições incómodas, 
  • Produzir-lhes escaldões ou queimaduras, 
  • Obrigá-las a ingerir alimentos fervendo ou com outros produtos (por exemplo, lavar as suas bocas com sabão ou obrigá-las a engolir alimentos picantes).

Em conclusão, na consideração do Comité:

O castigo corporal é sempre degradante.

Não esquecendo as formas não-físicas de castigos que são cruéis ou degradantes e, portanto, incompatíveis com a Convenção. Por exemplo, os castigos em que "a criança é menosprezada, humilhada, desacreditada, convertida em bode expiatório, ameaçada, assustada ou ridicularizada".

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Há algo que é importante ressalvar aqui.

O ideal de adulto no qual desejamos que as nossas crianças se tornem é dos mais elevados. Mas nós não somos perfeitos, pelo que nem sempre conseguimos dar os melhores exemplos.

Nessas situações, temos sempre uma forma de continuar pelo exemplo a educar bem. Se procedermos mal, podemos sempre pedir desculpa e explicar que errámos, que não conseguimos fazer melhor. Assim, mostramos que continuamos a valorizar as melhores atitudes e comportamentos, mas sem hipocrisia.

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Vamos agora ver o que a ciência concluiu sobre os castigos corporais.

Provocam danos físicos diretos (no cérebro em desenvolvimento, por exemplo) e indiretos (aumentando os níveis de cortisol no organismo, por exemplo).

Aumentam agressões entre crianças e de crianças para adultos, diminuindo a empatia e a compaixão pelos outros. Veja-se, nomeadamente, o exemplo de São Cassiano.

Causam vários problemas de Saúde Mental (ansiedade, depressão, obsessões, etc.).

São inúteis para motivar comportamentos bons e mais saudáveis, antes promovem mentir, copiar nos testes (procurando não ser apanhadas), faltar às aulas, desafiar, consumos, e suicídio.

Estimulam futuros comportamentos agressivos: de delinquência, de violência, de abuso de poder e de ausência de respeito, para com outros que sejam mais fracos.

Ensinam que causar dor e sofrimento a alguém se justifica quando uma pessoa se sente frustrada.

Só muito parcialmente são eficazes para acabar com alguns maus comportamentos. Em estudos feitos através de filmagens do que se passa nas famílias, em suas casas, observou-se que «Os efeitos do castigo corporal foram transitórios: em 10 minutos, a maioria das crianças (73%) havia retomado o mesmo comportamento pelo qual haviam sido punidas.»

Fomentam a Reatância Psicológica: Reflitamos no provérbio português que nos avisa que “Não é com vinagre que se apanham moscas.”

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Iremos continuar com o que a ciência nos diz sobre os castigos corporais.

Até lá, um muito obrigado pela excelente participação de todos e votos de uma ótima semana.


domingo, 8 de janeiro de 2023

Bem vindos!


Para construir e manter uma Civilização complexa como a nossa, mas em que todos sem exceção possam ser Felizes, não chega o conhecimento tradicional e simples. É preciso adquirirmos Sabedoria. É essa a finalidade desta disciplina. Conversarmos uns com os outros para aprendermos uns com os outros, numa atitude recetiva e sem preconceitos.

Aqui se irão pondo semanalmente os PowerPoints das aulas desta disciplina, dadas na Academia Sénior da Cruz Vermelha Portuguesa de Faro, para todos poderem ter acesso a eles.

Resumo da aula de 5-05-2026

  Link para o vídeo: Aula de 5-05-2026