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quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Os castigos corporais na educação de crianças

 












Terminámos a aula passada com uma primeira questão de carácter educacional sobre a qual precisamos de refletir:

Qual é o futuro adulto que desejamos criar?

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Várias características ideais foram listadas. Elas variam com o que cada família mais valoriza. Mas, procurando uma abrangência de todas elas, podemos talvez chegar à conclusão de que todos pretendemos que a criança aprenda:

  • A regular seu próprio comportamento;
  • A manter-se longe de danos; 
  • A melhorar a sua capacidade cognitiva, socio emocional, e as suas competências de funcionamento executivo;
  • A adotar para si os padrões positivos de atitude e de comportamento ensinados pelos seus pais e pelos seus cuidadores.

Mas como consegui-lo?

  • O principal é, sem dúvida, dando o exemplo. Só assim se consegue que a criança realmente interiorize as atitudes e comportamentos que desejamos.
  • A seguir, virá necessariamente o recurso constante ao diálogo e à argumentação pacífica, usando de paciência e compreensão (por exemplo, não julgando para condenar, saber primeiro o porquê das suas ações).
  • Tudo isto tendo por base um vínculo emocional de amor. Só se aprende bem no contexto de uma relação positiva. Sem relação, as aprendizagens são nulas ou, pelo menos, muito pobres.
  • Esse vínculo manifesta-se, por exemplo, dando um reforço positivo frequente às atitudes e comportamentos assumidos pela criança.

Isto garante que as crianças aprendam tudo o que queremos para elas? Ajuda muito, mas claro que não. Há a questão do temperamento, proveniente da genética (considera-se que o peso desta anda por volta dos 50%). E os educadores não conseguem controlar todos os contextos em que a criança se move e que também a influenciam: primeiro na creche, depois na escola, no clube, na casa dos amigos, etc.

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Na sequência disto, impõe-se a pergunta:

Pode-se ensinar atitudes e emoções positivas (que estão por detrás dos nossos pensamentos e ações construtivos), utilizando meios agressivamente negativos (palmadas, por exemplo)?

Para exemplificar esta questão: pode-se encorajar e treinar qualquer pessoa a andar de bicicleta dando-lhe palmadas de castigo, sempre que cometer erros?

A ambas as perguntas, podemos responder que não. O que parece ser preferível e mais eficaz é ir encorajando e treinando a criança na atividade que queremos que ela desempenhe bem, até ela ficar capaz de a fazer por si própria, sem a nossa ajuda e sem a nossa vigilância.

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No entanto, há quem aposte nos efeitos “benéficos” do medo infligido de forma violenta.

Esta última hipótese deverá ser posta fora de causa. Vamos perceber porquê.

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Segundo o Comité das Nações Unidas pelos Direitos da Criança, no seu Comentário Geral Nº 8 (2006), os castigos corporais são definidos como "qualquer castigo no qual a força física é utilizada com a intenção  de causar algum grau de dor ou desconforto, mesmo que leve".

Exemplos mais comuns:

  • Bater nas crianças (estaladas, bofetadas, sovas) com a mão ou com algum objeto: chicote, vara, cinto, sapato, colher de pau ou semelhante.
  • Pontapear, sacudir ou empurrar as crianças, 
  • Arranhá-las, beliscá-las, ou mordê-las, 
  • Puxar os cabelos ou dar pancadas nas orelhas,
  • Obrigá-las a ficar em posições incómodas, 
  • Produzir-lhes escaldões ou queimaduras, 
  • Obrigá-las a ingerir alimentos fervendo ou com outros produtos (por exemplo, lavar as suas bocas com sabão ou obrigá-las a engolir alimentos picantes).

Em conclusão, na consideração do Comité:

O castigo corporal é sempre degradante.

Não esquecendo as formas não-físicas de castigos que são cruéis ou degradantes e, portanto, incompatíveis com a Convenção. Por exemplo, os castigos em que "a criança é menosprezada, humilhada, desacreditada, convertida em bode expiatório, ameaçada, assustada ou ridicularizada".

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Há algo que é importante ressalvar aqui.

O ideal de adulto no qual desejamos que as nossas crianças se tornem é dos mais elevados. Mas nós não somos perfeitos, pelo que nem sempre conseguimos dar os melhores exemplos.

Nessas situações, temos sempre uma forma de continuar pelo exemplo a educar bem. Se procedermos mal, podemos sempre pedir desculpa e explicar que errámos, que não conseguimos fazer melhor. Assim, mostramos que continuamos a valorizar as melhores atitudes e comportamentos, mas sem hipocrisia.

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Vamos agora ver o que a ciência concluiu sobre os castigos corporais.

Provocam danos físicos diretos (no cérebro em desenvolvimento, por exemplo) e indiretos (aumentando os níveis de cortisol no organismo, por exemplo).

Aumentam agressões entre crianças e de crianças para adultos, diminuindo a empatia e a compaixão pelos outros. Veja-se, nomeadamente, o exemplo de São Cassiano.

Causam vários problemas de Saúde Mental (ansiedade, depressão, obsessões, etc.).

São inúteis para motivar comportamentos bons e mais saudáveis, antes promovem mentir, copiar nos testes (procurando não ser apanhadas), faltar às aulas, desafiar, consumos, e suicídio.

Estimulam futuros comportamentos agressivos: de delinquência, de violência, de abuso de poder e de ausência de respeito, para com outros que sejam mais fracos.

Ensinam que causar dor e sofrimento a alguém se justifica quando uma pessoa se sente frustrada.

Só muito parcialmente são eficazes para acabar com alguns maus comportamentos. Em estudos feitos através de filmagens do que se passa nas famílias, em suas casas, observou-se que «Os efeitos do castigo corporal foram transitórios: em 10 minutos, a maioria das crianças (73%) havia retomado o mesmo comportamento pelo qual haviam sido punidas.»

Fomentam a Reatância Psicológica: Reflitamos no provérbio português que nos avisa que “Não é com vinagre que se apanham moscas.”

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Iremos continuar com o que a ciência nos diz sobre os castigos corporais.

Até lá, um muito obrigado pela excelente participação de todos e votos de uma ótima semana.


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