Vamos continuar com o que, sobre o castigo corporal, muita gente acredita:
8. Sem o uso do castigo corporal para disciplinar as crianças, elas tornam-se mimadas e ficam sem regras.
9. O castigo corporal ensina uma criança a respeitar os outros. (ensina a ter medo, sim; a ter respeito, não)
10. O castigo corporal deve ser usado para disciplinar uma criança de cada vez que ela se comporta mal.
Efetivamente, esta crença nasce de uma ligação de causa e consequência que, pura e simplesmente não existe. Dar mimo, isto é, amor em abundância, não tem nada a ver com a criança ficar sem limites e sem regras. Aliás, um amor verdadeiro, que não seja apenas uma manifestação de um sentimentalismo barato, implica que se estabeleçam limites e regras ao que a criança pode fazer, a fim de garantir a sua segurança e o seu bem-estar, bem como os de todos os outros que convivam com ela.
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11. Os pais têm o dever de correção e, se for preciso bater, bate-se. (os pais têm o dever de correção, mas não têm o direito de cometer o crime de bater)
12. Os castigos corporais são sempre dados por amor e para segurança da criança. (não é verdade: o que a investigação demonstra é que os castigos corporais são aplicados porque os pais perderam a paciência)
13. As crianças esquecem com facilidade e recuperam bem de tudo o que de mal lhes façamos. (não é verdade: nem esquecem com facilidade, nem recuperam bem do mal que lhes fazem - aliás, se isto fosse verdadeiro, então bater para quê, se elas esquecem com facilidade?)
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Existem vários fatores que concorrem para haver pessoas que continuam a agredir com violência os seus filhos:
- Maus tratos sofridos na infância
- Falta de informação e de conhecimento
- Cultura da época
- Religiões que parecem favorecer os castigos corporais a todas as pessoas
- Regiões com hábitos diferentes, em que algumas defendem mais os castigos corporais
- Cansaço e outras pressões com origem no contexto onde as pessoas vivem o seu dia-a-dia (nomeadamente nos seus empregos)
- O clima político e socioeconómico do país – onde há mais solidariedade social e menos violência do Estado, há menos agressões entre as pessoas em geral.
Note-se ainda que o ser humano é muito complexo e não encaixa em nenhuma teoria, pelo que aqui não se fala de causas, mas apenas de condições que facilitam o eclodir da violência. E que continuam a alimentar aquelas crenças.
A encerrar este tema dos castigos corporais, aqui ficam alguns alertas do Instituto de Apoio à Criança:
📞 LINHA SOS CRIANÇA - 116 111
Uma equipa técnica especializada nos problemas que afetam as crianças e os jovens está deste lado para ouvir, acompanhar, ajudar, proteger e informar! 💙
Outros contactos disponíveis:
WhatsApp – 966 065 750 / 966 065 767 / 913 069 404
Chat online - www.iacrianca.pt
Email – soscrianca@iacrianca.pt
Linha SOS Criança Desaparecida - 116 000.
Para terminar este capítulo sobre o Estabelecimento de Limites e de como o fazer, lembro que só nos detivemos nos castigos corporais. Infelizmente, na nossa sociedade, as crianças são sujeitas ainda a muitos outros tipos de violência. Como, por exemplo, abuso sexual, abuso laboral, negligência e violência psicológica (da qual a violência verbal é apenas uma das suas várias componentes).
A luta para que as crianças sejam tratadas e educadas com a mesma justiça e com a mesma humanidade que os adultos exigem para si mesmos ainda vai muito no princípio.
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4. Valorizar e estimular progressos na criança
Vamos agora para o quarto pilar de uma educação para a paz. Vamos falar de valorizar e estimular progressos nas atitudes e no comportamento verbal e não verbal da criança.
Falo de "progressos" e não de resultados porque estes nem sempre são os que esperaríamos, nem muitas vezes são imediatos. Os progressos, sim, esses vão-se desenvolvendo ao longo do tempo e, portanto, dão muito mais oportunidades de elogiar a criança e de a encorajar no caminho certo.
Como podemos fazer isto?
- Primeiro, termos em atenção que há muito mais coisas positivas do que negativas para valorizar na criança (aliás, em todos nós). Por isso, não procuremos o pormenor irrelevante para humilhar; procuremos antes o que é verdadeiramente importante para elogiar.
- Proporcionemos experiências de sucesso de diferentes tipos, com desafios adaptados à idade da criança (veja-se foto acima).
- Mostremos compreensão e tolerância com as suas falhas (pois todos as temos, não são só as crianças; e também não gostamos que as utilizem para nos humilhar).
- Celebremos as vitórias da criança com alegria e orgulho. Às vezes podemos até fazê-lo com uma recompensa extra (não tem de ser material, pode ser concedendo um privilégio).
- Elogiemos principalmente os esforços que desenvolveu, embora também possamos fazê-lo com os resultados que obteve (o problema com estes é que dependem de outras coisas que a criança não controla, enquanto os esforços estão mais sob o seu controlo pessoal).
- Reconheçamos e apreciemos todas as melhorias que observarmos na criança.
- Valorizemos e encorajemos a persistência que ela revela para alcançar os seus objetivos e para ultrapassar as dificuldades que encontra.
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A ausência de elogios tem várias consequências pouco positivas.
- Receber um elogio da parte daqueles cuja aprovação mais se deseja (é o caso da criança em relação a nós), é o melhor sinal que ela pode receber de que o que fez foi bem sucedido (mesmo que não haja resultados visíveis).
- Quando não reagimos ao que a criança faz de bem, ela sente que foi mal sucedida ou que não devia ter feito o que fez.
- Assim, ela não o repete.
- Se não o repete, não o aprende.
- Se o insucesso se repete, ela aprende o insucesso (ela aprende o que se repete - seja qual a forma que ele tome, desde a violência até ao azedume e à distração).
Tenhamos em atenção que um comportamento menos bom ou de resistência relacionado com o desempenho escolar por parte da criança pode sinalizar
- problemas relacionais na escola;
- dificuldades de atenção ou de aprendizagem;
- ou, às vezes, simplesmente um problema de audição ou de visão, por exemplo.
É preciso despistar estas possibilidades, antes de pensarmos em criticá-la e condená-la (e muito menos de castigá-la!).
Antes de terminar o tema de como educar para a paz, gostaria de esclarecer que, evidentemente, a disciplina sem violência poderá ser imperfeita (há poucas coisas perfeitas no nosso mundo) – só que também é verdade que, com violência, é pior.
Com as crianças, hoje em dia, temos de escolher ou fazer coisas possivelmente ineficazes, ou fazer coisas decididamente criminosas. Bater numa criança é legalmente um crime, mas há outras coisas que, embora não haja lei que as proíba, são também crimes. Devemos evitar fazê-las. Falámos delas ao longo destes meses, mas, genericamente, podemos incluir tudo o que lhe cause um sofrimento físico ou mental que está na nossa mão impedir, sem que daí advenha um prejuízo para ela.
Mas têm os Educadores e os Cuidadores de ser perfeitos? Não. Nem o devem ser.
Por exemplo, os pais não devem responder sem falhar a todas as necessidades da criança, senão ela também não cresce (não aprende a lidar com dificuldades, a ultrapassá-las, etc.). A única necessidade cuja satisfação não deve ser nunca negada é a do AMOR!
Por isso, uma mãe ou um pai só precisam de ser suficientemente bons. A imperfeição é humana. As crianças preferem-na.
Até porque pais perfeitos constituem uma carga suplementar de culpabilização para os filhos durante toda a sua vida (devido a nunca conseguirem igualar a perfeição dos pais).
Em resumo, os 4 pilares de uma educação para a paz são:
- Manifestar sempre Afeto / Amor pela criança.
- Escutar Ativamente a criança.
- Ser Firme (não rígido) no Estabelecimento de Limites.
- Valorizar e Encorajar a criança, estimulando-a a alcançar a melhor versão de si mesma.
Gostaria de pedir a tod@s que, para a próxima aula, trouxessem uma pergunta que desejassem ver tratada nas próximas semanas. Que esteja mais ou menos dentro do âmbito da Psicologia, de preferência. Uma pergunta que vos seja realmente importante e premente.
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Obrigado e uma ótima semana para tod@s!





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